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Pensei que fosse a hora. Peguei uma mochila como uma mãe pega um filho, coloquei nas costas, olhei para os lados, todo contente, e ri pra mim, lá vou eu! Não sabia exatamente para onde, mas algum lugar era meu destino. Atibaia (SP) foi um dos meus pontos de pouso. Com um mapa de caminhoneiro e um caderno velho adentro a rodoviária da cidade. Era dia 5 de agosto. A tarde ia caindo suave apesar do movimento frenético dos passageiros, correndo de um lado a outro, com suas bolsas, bagagens e sonhos.
A cidade com seus ônibus floridos, picos e morros despertavam a minha atenção. Inebriado, simultaneamente acompanhava os transeuntes que pareciam pequenas peças de uma grande engrenagem, que não cessavam momento algum. Ao meu lado as lojas despejavam papeis e caixas. E lá embaixo, depois da cerca, aparecem os catadores de papelão e outras coisas, e mais próximo de mim, começava a se acomodar o primeiro morador da rodoviária.
A primeira reação foi se aproximar dos guichês, clima que era de admiração, passou a ser de preocupação. O sinistro ambiente foi à única opção que me restou. A repartição da bilheteria havia fechado, restavam-me os bancos gelados do lado de fora. Queria não acreditar que era verdade. Confiro a carteira, e tenho a triste constatação de que meus milhões haviam acabado. O que fazer? Acomodo-me no banco em frente à praça da rodoviária, nisso aponta o atendente da lanchonete, seu Antônio, um senhor simpático, dos dentes prateados e barba falhada.
Peço uma sugestão. O senhor não sabe onde tem uma pousada mais em conta por aqui? Sendo que me sobrava naquele instante apenas quatro reais e cinqüenta centavos. O senhor dos dentes brilhosos, segura os poucos cabelos e me diz, olha essas horas já está tudo fechado. Nesse intervalo chega a ultima condução dos coletivos da cidade, que arrebanha os últimos trabalhadores e o seu Antônio. Era um ônibus barulhento e sem placa de destino.
“É, pelo jeito vou ter que dormir nesses bancos” Rodoviária fechada. Relógio correndo. Aos poucos vou ganhando confiança, estava me sentindo dono do hotel do mundo. Foi lá pelas 2h15 da madrugada, que começou a chegar os hóspedes do hotel do mundo. Depois do primeiro, Chico pipoqueiro, vieram Zé, Amigão, Careca, Cabeção, e outros que não escutei a forma como eram chamados.
“Esses camaradas vão me incomodar”. Nada disso. Demoraram a vir conversar comigo. Pediram se eu era morador novo na área. E que ali, cada um tinha o seu, isto é, cada qual com seu ponto. Pediram para eu ficar tranqüilo, pois eu era novo no hotel do mundo, e que ali as portas estão abertas a todos que necessitam.
Ostentando um livro e um cobertor nas costas, não possuía os mesmos esteriótipos dos moradores da “casa”. Portanto, eles sabiam que eu possuía algo diferente dos rotineiros do lugar, como falaram a mim.
Novamente o ambiente voltou a ser de entretenimento e descoberta. No bate papo, o Zé, vendedor de pipocas e doces, comenta “a você é jornalista, vou arrumar um emprego pra você, conheço todos os funcionários do jornal Folha de São Paulo, sou muito amigo deles, já vendi muito o jornal no semáforo com eles”. Amanhã você vai estar aqui?
(*) Wemerson Augusto é jornalista em Foz do Iguaçu
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