Hip-hop, expressões
e narrativas da cidade
(*) Danilo George Ribeiro
Esse trabalho visa abordar questões da periferização do mundo urbano, a partir do do rap, aqui entendido como uma das possibilidades de expressão e narrativas de experiências de moradores de regiões periféricas de grandes centros urbanos brasileiros.
Voltando-se inicialmente para grupos que desenvolvem seu trabalho a partir da cidade de São Paulo, especialmente o grupo Racionais Mc's, objetiva-se problematizar posturas assumidas por esses artistas frente a algumas questões sociais presentes no cotidiano da cidade, pautando temas como violência, opressão, drogas, tráfico, lazer, trabalho, desemprego, entre outros temas.
Ao mesmo tempo, busca-se discutir a inserção de crianças e jovens nesse debate a partir do envolvimento com o hip hop , através de seus múltiplos diálogos com outros espaços que também se inclinam à reflexão e produção sobre o meio social vivido, como algumas associações comunitárias, espaços educativos, religiosos, de lazer, etc.
O hip hop surgiu nos Estados Unidos na década de 70 a partir de algumas questões que estavam surgindo no âmbito da juventude negra e dos seus questionamentos em torno de questões raciais e de classe.
O hip hop nasce, portanto, a partir de um profundo diálogo com outros movimentos já existentes, como os black power, os “panteras negras”, Malcon X, entre outros. De uma forma geral, tratava-se de movimentos que se preocupavam com questões como a auto-estima e a auto-valorização dos negros, em um meio ainda dividido pelo debate que sacudira a sociedade americana a partir da segunda metade dos anos 1950.
Em sua forma inicial, o hip hop americano aparece extremamente associado à cultura de rua e, por isso, associado ao discurso da delinqüência juvenil. Sua expressão era traduzida tanto na forma corporal (especialmente a dança, como o break ), e rítmica (especialmente a forte batida do funk). Também o grafite e a forma característica de cantar (quase falada) são duas de suas características mais marcantes desse período.
Apesar de preservar a maior parte dessas características, no Brasil, o movimento acabou sofrendo uma espécie de “tradução”: aqui, chegando já nos anos 80, o hip hop passa a abrir possibilidades para a expressão e inclusão de jovens de baixo poder econômico, e que, embora impossibilitados de comprar discos, revistas ou equipamentos necessários para a montagem de grupos de rap, nutriam-se de materiais, informações e do diálogo realizado com outros grupos ligados à contracultura que surgiam nos centros urbanos naquele momento, especialmente os punks. .
Nesse sentido, pode-se dizer que os primeiros Rappers paulistanos surgiram estreitamente vinculados a uma perspectiva contestatória aos valores morais, estético e artístico dominantes, além de uma ácida critica a estrutura social, o que indicava que o rap desde seu inicio já assumia um discurso bastante politizado em relação ao seu meio social.
Um dos grupos que surgiriam nesse processo e que, mais tarde, se tornaria um dos maiores ícones do hip hop no Brasil, é o grupo Racionais Mc's. Formado a partir do encontro de Rappers que viviam nas regiões periféricas da zona sul da cidade de São Paulo, especialmente do miserável bairro Capão Redondo, o grupo começaria a produzir seus primeiros trabalhos já no final dos anos 1980.
Gravando inicialmente a partir de coletâneas e participando de festivais; posteriormente, passaria a realizar trabalhos solos, gravando já em 1990 o LP Holocausto Urbano , na qual constava, entre outras, títulos como “Mulheres Vulgares”, “Hey Boy” e “Periferia é Periferia”. Aqui, ainda era possível perceber um uso cuidadoso e comedido de algumas gírias – preocupação que praticamente desapareceria nos trabalhos posteriores -, e uma linguagem bastante elaborada que dialogava com algumas categorias de análise próprias do debate acadêmico.
Porém, foi com o lançamento do álbum “Raio X do Brasil” que o grupo se tornaria definitivamente conhecido, especialmente na cidade de São Paulo. Alguns temas ali presentes logo se tornariam modelares para o movimento como um todo, constituindo-se como uma referência quase que obrigatória para os demais grupos que surgiam no cenário do hip hop nacional, bem como de outros movimentos.
Musicas como “Fim de Semana no Parque” e, principalmente, “Homem na Estrada” traziam denúncias e críticas à divisão social da sociedade paulistana, mas igualmente, ainda que num tom carregadamente pessimista, informavam sobre a existência de um cotidiano complexo e vivido de forma ambígua, contraditória e conflituosa.
No trabalho, abria-se espaço para a discussão sobre formas de viver e se inserir nessa sociedade urbano-periférica, inclusive com a revelação da existência tácita de todo um de um código moral e ético, além de pautar noções de direitos (negados ou reivindicados) e a possibilidade da reconstrução física e simbólica desse cotidiano a partir da experiência e da sabedoria popular.
Finalmente, uma faixa instrumental tocada em ritmo de blues (Fio da Navalha) buscava valorizar a influência da produção cultural da musica negra no mundo, e, em outra faixa (Júri Racional), reivindicava como necessária a tomada de consciência dos negros sobre sua condição étnica, valorizando-a em relação às demais.
Ressalta-se que esse trabalho foi realizado numa época em que o grupo mantinha fortes vínculos com projetos educacionais da administração pública municipal paulista, então governada pelo PT de Luiza Erundina, e, nesse sentido, estabeleciam todo um diálogo com grupos políticos de esquerda partidos, sindicatos, movimentos de classe, acadêmicos professores, educadores, intelectuais, bem como movimentos sociais ou representativos de grupos minoritários e locais como: movimento negro, associações de bairros, rádios comunitárias.
Embora na atualidade seja muito comum associar a gênese do movimento à presença sempre marcante dos Racionais Mc's, ou, mais comumente, sua crítica social como “a voz da favela”, é importante ressaltar que dentro e fora de São Paulo assistia-se nesse mesmo período à emergência de outros grupos artísticos-musicais que também se dedicavam à leitura e interpretação do cotidiano periférico desses grandes centros urbanos.
Apenas a título de exemplo, podemos citar o rap de GOG, em Brasília; o Mangue-beat, de Chico Science, na cidade de Recife; o funk oriundo dos morros cariocas, além de outros grupos de rap que também surgia na cidade de São Paulo, como Pavilhão Nove.
Também datam dessa época o surgimento de diversos outros grupos que, apropriando-se de formas musicais e de uma linguagem popular, também produziam ao seu modo retratos do cotidiano da vida nas periferias de centros urbanos.
Destaque especial para o surgimento de diversos grupos de pagode (samba urbano romântico e ritmado), e que, apesar da forte apelo comercial da industria fonográfica, dialogavam diretamente com algumas daquelas questões que estava sendo abordadas pelo Rap dos Racionais Mc's.
Alguns trabalhos posteriores do grupo Racionais viriam a consolidar essa trajetória de crítica às condições de vida do meio social vivido e ao sistema capitalista como um todo, Enfocando especialmente a luta intestina de uma sociedade de classes, o grupo chamava a atenção para a necessidade do auto-reconhecimento, auto-valorização e pelo fim da e violência entre pares.
No álbum “Sobrevivendo no inferno”, reivindicavam símbolos da musica negra, inserindo como primeira faixa um trecho de uma musica de Jorge Ben, “Jorge da Capadócia”, e que se constitui numa espécie de oração a São Jorge, figura representativa do candomblé.
Tratavam em seguida de temas como pobreza, divisão social da cidade, crime e marginalidade, problematizando tais processos como historicamente constituídos, negando portanto sua naturalização enquanto conseqüência de uma índole negativa própria de populações periféricas, ou a miséria urbana como fruto necessário (embora indesejado) do progresso urbano.
Finalmente,o grupo Racionais retomou feridas ainda mal-cicatrizadas na sociedade brasileira como o massacre do Carandiru de 1992, na faixa “Diário de um Detento”, no qual pautavam temas como marginalidade, violência estatal e policial, e no qual sugeriam implicitamente que noções como violência e criminalidade eram também qualificativos atribuídos a partir de critérios de classe social, assim como serviriam como justificativa para a repressão constante às populações periféricas e ao exercício de poder da classe dominante.
Desenvolvem nesse álbum algumas noções que seriam retomadas posteriormente no álbum duplo “Nada Como Um Dia Após o Outro Dia”, de 2002, especialmente quando problematizam a relação entre periferia e cidade, apontando que o medo que a periferia representava para o conjunto da sociedade era resultado da própria atitude dessa cidade em relação a estes espaços.
Nesse sentido, assumia esse “medo” como parte de sua identidade, que poderia servir inclusive como forma de autodefesa desses espaços em relação às outras formas de violência exercidas contra a periferia, quase como um “direito” historicamente conquistado e que, ao seu modo, subvertia o monopólio da força exercido pelo Estado, apontando serem legítimas qualquer forma de sobrevivência e de expressão dessas comunidades, mesmo e principalmente quando essas práticas questionavam conceitos dominantes na concepção organizacional dessa sociedade burguesa.
A música urbana surgida nos idos dos anos 1980 em grandes centros urbanos precisa, portanto, ser considerada com sendo algo mais do que um mero “lazer” desses grupos. Significa reconhecer se tratar de um momento marcado pela emergência de diversas vozes oriundas das periferias de grandes centros urbanos, e que, de alguma maneira, buscavam tornar visível sua presença no espaço da cidade, reivindicando o direito de serem reconhecidos como sujeitos históricos e pautando noções de direito e participação construídas a partir da experiência social de vida nesses lugares.
Também, especialmente no caso do hip hop, buscava-se denunciar as mazelas de um cotidiano contraditório, violento e marcado pela exclusão social, contra a qual os moradores desses lugares deveriam se levantar e reconhecer sua capacidade de luta. Para além de uma simples forma de expressão artística, portanto, esses movimentos integravam-se a um debate mais amplo, que além de colocar questões novas, acabava por politizar esse cotidiano e tomar parte importante na busca pela construção de uma identidade social de luta e expressão desses sujeitos.
Referências bibliográficas
HALL,Stuart. Da diáspora .Belo Horizonte:ed.:UFMG,2001.
MADEIRA,Angélica e Veloso. Descobertas do Brasil :ed. da UNB,2001.
ELAINE N.de Andrade (org). Rap é Educação .São Paulo:summus,1999.
Danilo George Ribeiro cursa o terceiro ano do curso de História da Unioeste, em Mal. Cândido Rondon
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