Tempo
(*) Silvio Campana
Aliás, todos os dias assim é aqui. Na rotina do banho de sol as pernas encardidas na poeira da cela, enquanto espera a sirene, ele conta de cabeça as latinhas de cerveja que colecionava, infantil, na sala de sua casa, antes de vir para cá.
É como dizem uns, tempo pra passar. Àlgumas vezes, nada demais a prisão. Outras tantas e quase sempre, um tigre quieto, pesado e inerte, à espreita. É quando se pode somar com quantos desatinos se faz uma tragédia. Nele, por exemplo, predomina a idéia de que a tarefa tardia é de escutar a alma, consentir a solidão do castigo e lembrar como tudo aconteceu.
Naquele dia curto e bizarro, como sempre serão as datas decisivas, alimentou o futuro com indelicadezas e palavrões ao vento. Foi rápido e importante, enquanto uma tropa de motoboys se enrolava feio com os taxistas encontrando um espaço entre o ponto da lotação e a turba que vinha a pé do outro lado da ponte, como um grande arrastão, trazendo as nossas mercadorias. Foi assim que o tigre de dentes afiados começou a rugir.
Impiedoso que é, o velho hábito da fronteira de se conversar sem as palavras gentis, organizando o caos e a própria sobrevivência. A oferenda aos deuses da tolerância e do consumo tomando a ponte. Ou, dividindo-a.
O pessoal lá, perguntando quem ia e quem não ia no meio da gritaria generalizada pela disputa:
- Carro, senhora!
- ...Moto, mano...
Foi quando ele pegou aos pulos a bolsa das mãos da primeira mulher, apurada nos passos. Repetiu com gosto aquele tradicional “calma, senhora” e botou uma ponta de ironia no lábio enquanto indicava o carro da frente com o queixo e o silêncio.
Talvez a fumaça dos pneus, que ainda queimavam depois de uma manhã de confrontos, ajudou a reforçar mais o clima no escândalo da moça e na reação de revolta nos outros laranjas. Nos dois primeiros socos, ele resistiu ao instinto, tentando se explicar. O terceiro, bem na boca do estômago, fez o que era pra ser um tiro para o alto, virar isso tudo. Isso, e, pra bem dizer, nada...
Aí, foi só a vista alcançando longe o final da história. Essa mesma, do sortilégio de pagar na mão do destino.
No corpo do homem baleado, caído à sua frente, a velha mania de se divertir com pequenos assobios entre os lances de pernas do vai-e-vem das compras, ia sumindo. Os olhos arregalados da vítima, com a bala alojada pouco acima das costelas, esfriando para uma falta de horizonte. E, nele, mão chamuscada de pólvora e sangue, a inútil vertigem do arrependimento mutilando um derradeiro minuto, já com pontapés e bofetões anunciando o fim da liberdade.
Silvio Campana é jornalista em Foz do Iguaçu.
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