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Prosa poética
...Ella

(*)Oliverio Girondo

Me recolhia entre seus braços retos e ela se aderia ao meu corpo, com uma violenta viscosidade de molusco. Uma secreção pegajosa ia me envolvendo, pouco a pouco, até conseguir me imobilizar. De cada um dos seus poros surgia uma espécie de unha que me perfurava a epiderme. Seus seios começavam a ferver. Uma esfervecência fosforescente a iluminava o pescoço, as cadeiras; até que seu sexo - cheio de espinhas e de tentáculos - se incrustrava em meu sexo, precipitando-me em uma série de espasmos exasperantes.
Era inútil que a tateasse nas pálpebras, nas concavidades do nariz. Era inútil que eu gritasse meu ódio e meu desprezo. Até que na última gota de esperma nao se me desprendia da nuca, para me perfurar a espinha dorsal como uma gota de lacre derretido, suas encías continuavam sorvendo meu desespero; e antes de me abandonar deixava seus milhões de unhas cravadas na carne e não tinha outro remédio que não fosse passar a noite arrancando_as com umas pinças, para poder derramar uma gota de iodo em cada uma das feridas...
Bonita festa a de ser um adormecido que usufrue da predileção dos demônios!

(*)Oliverio Girondo, poeta de língua espanhola, publicou Espantapajaros, em 1932.

 

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