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A Garganta do Diabo,
Yriapú em "A Terra sem Males"

  (*) Karoso Zuetta

(Texto publicado na revista Escrita 4)

Cansado pela árdua tarefa de espalhar maldades, Añá deteve seu caminhar de milênios na desembocadura do rio Iguaçu.

A sesta americana calcinava duendes preguiçosos , quando o diabo recostou sua ossada em fogo sobre o leito do Águas Grandes.

O rio, com gesto maternal, estendeu um úmido lençol sobre esse corpo envolto em chamas e Añá, ingratamente inescrupuloso, caiu na auto tentação de beber toda a água cristalina: abriu sua bocarra vulcânica e o Iguaçu, violentamente defraudado, despejou nela sua fúria líquida.

Das goelas do mesmo inferno, telúricos rugidos sísmicos sacudiram a terra anunciando que a água vencia o fogo mais uma vez.

Repentinamente endurecido, como lava bruscamente esfriada, o corpo de Añá ficou aprisionado para sempre entre os barrancos e, da Garganta do Diabo, em um sustenido Yriapú disfônico, o rio retorna como espuma e neblina.

É por isto que os Mbya-Guaraníes reconheceram nesta parte do mundo “ A Terra Sem Mal” ou Yvymaraey que buscavam em seu peregrinar pela terra.

Glossário:

Yriapú : Rugido da água.

Añá: divindade que representa o mal entre os Guaranis.

Iguazú :Trad. del Guar.: “Águas Grandes.

Garganta del Diablo : Nome da principal queda d'água das Cataratas do Iguaçu.

Ivymaraey : Del guar. Yvy : Terra; mara : mal, mancha; ey : sem: “A terra sem mal”.

Mbya : “A gente”, etnia guarani que habita o atual território de Misiones.

(*) Karoso Zuetta é argentino, músico, pesquisador da vivência m`bya guarani. Mora em Posadas, Misiones. Zuetta é membro do Conselho Argentino de Música da Unesco.

(**) Tradução para o português: Carmen Luzia Alpendre dos Santos. Carmen é professora de língua espanhola em Florianópolis, SC.

 

 
 
 
 
 
 
 
 
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