O ópio da revolução
(*) Fábio Campana
Um personagem de Hélio Vera diz que o ópio do povo não é a religião. É o sexo. Posso dizer que o ópio de minha geração não foi nem a religião nem o sexo, foi a revolução.
Ninguém que tivesse um conjunto de neurônios sadios e uma dose de sensibilidade ficou à margem do vento libertário que varreu o mundo nos anos 60.
Vivíamos aqui, sob o regime fardado que se instalou em 1964 e por mais de duas décadas impôs disciplina de quartel para estabelecer a mudança no sentido oposto ao projeto que tínhamos para o país.
Ainda falta contar a história das décadas de terror.
Este livro ("Onde Foi que Vocês Enterraram Nossos Mortos") de Aluízio Palmar relata a sua abnegada procura pelos restos mortais de militantes atraídos para uma cilada que lhes custou a vida. Foram fuzilados e enterrados no Parque Nacional do Iguaçu.
Ao narrar essa experiência, Palmar conta a sua própria, de combatente que passou pelas circunstâncias de seu tempo. É, portanto, um livro fundamental para a reconstituição da história dos movimentos armados no país durante o regime militar.
A ditadura venceu e cumpriu o seu ideal. É o que hoje temos. Uma sociedade periférica, endividada, submetida ao capital externo e incapaz de remover ao menos os bolsões de miséria em que vive grande parcela dos brasileiros.
Nossos sonhos eram os de outra transformação. Queríamos avançar para uma Nação socialista, igualitária, capaz de dissolver as diferenças sociais que estão na raiz de nosso atraso.
Já não acreditávamos que seria possível operar qualquer mudança pela via democrática, eleitoral. Essa perspectiva morreu com a experiência frustrada do governo de João Goulart. Nem as reformas para aperfeiçoar o incipiente capitalismo da época eram aceitas pelas oligarquias dominantes.
Foi nesse quadro e tendo como pano de fundo a guerra fria que surgiram as primeiras organizações que se desgarraram dos partidos comunistas tradicionais para tentar mudar o mundo a partir do esforço voluntário de um punhado de militantes dispostos a arriscar tudo para mudar o curso da história.
Aluísio Palmar é um militante da esquerda formado nessa quadra da vida brasileira. Dissidente do PCB no estado do Rio, liderou a primeira tentativa de luta armada contra o regime no final dos anos 60. Foi o organizador do MR-8, o Movimento Revolucionário 8 de Outubro, assim chamado em homenagem a Che Guevara, assassinado nessa data em 1967, na Bolívia. Digas-se, para tornar as coisas claras, que o MR-8 que hoje existe nada tem a ver com o movimento original e seu ideário.
(*) Fabio Campana é jornalista e editor.
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