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CONTO

 

A barriga miúda

(*)Lepê Correia

Chuva! Muita Chuva e um imenso lamaçal. Já passara das três da tarde e o sol ainda não botara o olho de fora.

- Tu queres calar essa boca, menino? Ora lá, com tanto choro...pareces até...que vais te derreter! – ralhava Cidinha, a ex-professora, com Janoca, seu filho de quatro anos, que parecia uma cigarra no tronco do cajueiro, chamando a chuva.

Todo dia era a mesma coisa. Mas o que haveria de fazer? Não dá pra parar de chorar, quando a barriga não tem o “principal”. E a chuva não dava tréguas. A trouxa de roupa estava lavada, passada e pronta para ser entregue. Mas debaixo daquele pé d´água...? Adeus trocados da semana. A farinha tinha acabado; leite era palavrão, e Janoca com a boca no mundo...

- Menino, pára pelo amor de Deus. Eu não tenho o que fazer. Comes esse danado desse bico de pão que tem aí e vê se te calas.

A nega Cida estava cinzenta de fome também, mas gente grande engana a barriga com qualquer copo d´água, e menino, não. Menino é lasca!

- Santa Clara, veja se clareia esse dia. Eu lhe dou um cachimbo de fumo... Mamãe Osun, já basta de água, por favor! Em nome de Osalá...

Mas Santa Clara nem  tava aí. Já estava acostumada com promessas de nordestino; e com esse liseu, com quem se compraria fumo?

- Menina, deixa de incomodar o Orisá! Deixa a chuva, o tempo é dela.

- Ora, mamãe. A senhora só sabe dizer isso...

Arre! – Dá um muxoxo. E a velha, cheia de paciência, bota o neto no colo, mostra a goteira, faz “besouro” – bzuuuu!!... – Mas o neto não quer acordo...

 

(Lepê Correia é militante negro, nascido em Pernambuco. O conto “Barriga Miúda” foi extraído do livro Cadernos Negros, vol. 20, organizado pelo Movimento Quilombhoje).

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