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Indecisões do Meu Eu Torto

José Nami Sobrinho

 

Eu, Torto, fui bancário.

Minha conta corrente – um verdadeiro processo...

Demasiado triste, queixando-me da falta de sapatos novos...

Passei a questionar a direita e a esquerda.

Todavia já não duvidava que o centro fosse o lado obscuro da vida.

Percebi que havia muita mentira no ar:

Os ideais estavam mortos...

Eu era o que tinha; não era o que era...

A palavra do homem já não valia mais nada...

Um contrato verbal era coisa de otário...

E, por questões de somenos importância, numa observação sutil,

Um contrato por escrito também poderia significar o mesmo engodo:

Traria, por diferencial, a enganação e humilhação aos mais escolados...

Não era mentira que as palavras passassem com o vento,

E que os enganadores zombassem dos enganados, comemorando festivamente

Suas vitórias trapaceiras...

Os cumpridores de promessas, que ainda existiam,

Eram personalidades de cavalheiros pré-históricos

Transportados e perdidos nos tempos atuais da malícia

Estelionatária mental, social, física e espiritual.

Ciente da minha insignificância, fui tentar meditar e recarregar as forças:

Estive embaixo de uma tília frondosa às margens de um regato despoluído

Queria saber se tudo continuava bem no melhor dos mundos...

Foi aí que alguns demônios, notando a fraqueza de meu espírito,

Vieram zombar dos meus sentidos.

Me tentaram com o poder da riqueza material,

Me disseram que o dinheiro, além de falar alto,

Movia as montanhas que eu quisesse...

Magnetizado, eu quis roubar o banco que me escravizava naquele

Eterno status de terceiro mundo.

Fiquei todo ambicioso e megalomaníaco

Queria ser banqueiro e não bancário...

Vi passar os dias e... por acaso,

Estive tateando aquele mirrado salário lá do fundo do meu bolso.

Num átimo, as partículas subatômicas dos meu neurônios

Revolutearam revolucionárias... neuróticas... neurastênicas...

Tive a certeza do quanto fora maldita

A hereditária distribuição de renda inventada pelas capitanias...

A injusta razão de semelhança social e financeira dos brasileiros

Não levei adiante semelhante projeto

Não tive concentração mental nem coragem suficientes para tal proeza

Era e continuo sendo mais um ente ordinário no meio do turbilhão passivo

Um ente que obedece a essas potências extraordinárias todas

Que formulam e ditam leis em benefício próprio...

José Nami Sobrinho é professor de tênis em Foz do Iguaçu.

 
 

 

 
 
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