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Pontes de fraternidade

  (*) Silvio Campana


É assim que eles fazem no final de cada tarde. Encostam-se pelos bares sujos do porto e remoem idéias.
São conversas sobre como pescar o peixe gigantesco que, todos sabem, existe lá na confluência das águas do Iguaçu com o Paraná. Pode ser também uma discussão sobre a novela da televisão ou de como conquistar as mulheres tortas que moram na casa amarela, na subida para o centro da cidade. Mas, não importa o tema da conversa, sempre acabam falando mesmo é da maldita construção.
Nessas rodas de pôr-do-sol, os meninos se misturam aos homens e crescem ouvindo sobre viagens inesquecíveis, mortes, fortunas, coragem e noites de prazer. Entre os tragos na cachaça dos adultos, guardam imagens para povoar as noites de sorte ou azar.
É como aconselham os mais velhos: todo homem tem no destino a cor da surpresa e da magia que a experiência e a velocidade das mãos conseguirem criar.

- Olha, a coisa foi feia... Eu já tinha feito umas três viagens naquele dia. Era uma quinta, dia de compra em Aguirre. Porque, naquela época, tinha dia marcado para brasileiro comprar lá. Terças e quintas, lotava de turista atrás da gente pra atravessar.

As pernas curtas, os ombros largos, a cara caolha, os lábios deixando os dentes amarelos escaparem em cacos. O retrato é quase de um figurante desses filmes de pirata, onde a marca indissolúvel dos malfeitores é sempre a feiura. Eis, Tatu.

- O Meio-mundo, que Deus tenha um bom lugar pra eles, já tinha me contado sobre esse assunto de terrorismo lá na Argentina uma vez. Os militares de lá, caçavam os caras de tudo que é jeito. Porque a coisa foi muito feia por lá. Principalmente em Buenos Aires que é a capital, né?!

Das sete da manhã, às nove da noite, contando passageiros. A lancha de 10 lugares, em idas e vindas no mesmo percurso. Pega o pessoal no bondinho do lado brasileiro, solta no atracadouro argentino. Espera o embarque de quem está na fila e tome voltar pro porto brasileiro cheio de provistas argentinas.
Ele é um dos tantos que pilotam, margem a margem, aqueles barquinhos amadurecidos pelo tempo e que, em breve, o arco de concreto virá substituir. O olho de vidro, uma calota fixa que reflete a água escura de óleo, conseguiu numa das tantas discussões no bailão do Porto Meira. O andar canhestro, arrumou nos anos de labuta, naquela barranca fronteiriça.
A vida é, nesse balcão de bar, uma cobra enfim engolindo o próprio rabo. A palavra falada à boca pequena, sem começo, sem fim.

- Como eu ia dizendo, eu já estava pela terceira ou quarta viagem do dia quando aconteceu aquele troço. Quando o casal embarcou, eu vi que eles tentavam esconder um nervoso. Larguei a corda, fiz motor e saí assim, atacando o remanso pra manobrar. Foi quando eu vi o pessoal correndo, que a veraneio que vinha à toda, lá em cima, na correria, quase atropela todo mundo que esperava no ponto de ônibus para o centro.
Vocês acham que eu ia pensar que o que eles queriam, estava no meu barco? E eram os tais gringos que eles queriam. O pessoal foi todo espalhando com medo dos tiros. Nisso eu alcancei o início do canal... Teu pai sabe como é, uns redemoinhos traiçoeiros que só. Dentro da barca, porra, um olhava pro outro com cara de espanto. O padre que estava sentado ao lado dos argentinos, murmurou algo para a freira que ia de frente para ele, no outro costado da lancha. E o casal de argentino, olhando pra baixo.

O que se vê na decadência desses embarcadiços é a amargura. Olham com rancor as plataformas de concreto que crescem todos os dias e, inevitavelmente, se transformarão na grande ponte. Com ele, dizem os políticos brasileiros e argentinos, seremos, finalmente, irmãos.
Os marinheiros contam suas histórias e tentam espantar, a gritos bêbados e estridentes, a maldição de uma realidade que virá ocupar o lugar do único ganha pão das rendondezas. Por isso, no concreto que se levanta deslumbrante para o poente, florescem também contornos de mágoa e despeito. Ressentimentos que incomodam aqueles corações acostumados ao movimento das águas, à pontualidade das chuvas, à impessoalidade no trato com os que passeiam pelo rio. Uma embolia que arrepia esses homens queimados pelo sol da fronteira.

- Os caras da veraneio, lá de cima, atirando. Pá, pá, pá. Os tiros raspando a lancha. Olhei para os dois estrangeiros já entendo que era com eles a bronca. E aí, falei: não tenho nada com isso, nem contra. Eu não posso levar bala por causa de vocêis. Eles não deram nem um pio. Ficaram olhando com uma cara de pavor para mim e para os outros na lancha. Mas deu pra sentir que eles estavam ali pra tudo, a mulher com os olhos esbugalhados. E eu nunca vi gringa mais linda que aquela, pele branca, curepa mesmo, com as sardas perto do pescoço e tudo, bem vestida. Bonita, as pernas bem torneadas. Tanto que eu olhava e o homem nem aí, estava mesmo preocupado era com os tiros.

Azeitona, pêssego, queijo, vinho, compotas, maçã, salames, camisas, blusas, alpaca, antílope, lá, cachemir, perfumes italianos. Houve época em que as filas começavam a se formar de madrugada e os barqueiros mal davam conta. As canoas, envoltas em espuma branca, obedeciam o leme destro, cortando o canal entre os espirais da água funda e veloz do nosso rio.
Às centenas, os turistas esperavam ali pelo porto a sua vez de ir às compras.

- Lá do outro lado, na Argentina, a movimentação do pessoal da argendarmeria não era pouca coisa. Gente correndo pra todo canto. O barranco apinhado de militares, fuzileiros e do exército também. O chefe dos fuzileiros, com aquele auto-falante de mão gritava pra gente, que não ia acontecer nada. Que era só atracar no porto e pronto. Eu segurando, ó, que nem agulha passava. Acho que rezei pra tudo que é bendito.
Eu já tinha feito a metade do canal. Aí, o casal começou a mexar na bolsa que a mulher trazia no colo. Eu pensei, agora eles vão começar a atirar também. Mas, não. Tiraram foi um vidrinho de comprimido. Eu fiz a cara de mais desentendido ainda. Os homens lá, do barranco gritando que eles estavam presos. A mulher olhou pra mim com uma cara de que sabia que não podia se entregar. Falou com um sotaque correntino, mas na língua brasileira, que eles não eram criminosos. Foi só o que ouvi deles. O homem deu uma cutucada e ela se virou. Trocaram um beijo na boca e foi só. Ainda deu tempo de ver os dois engolinido os comprimidos. Nao passou mais do que um segundo e já caíram pra dentro do rio. Aquilo deve ter moído tudo lá por dentro. O Tomaz, da lancha argentina, depois me falou que aquilo era cianureto. Veneno poderoso! Disse que o capitão da argendarmeria disse que os terroristas usavam pra não se entregar vivos. Eles eram de um tal grupo montonero, que ainda exista, mas que agora os que sobraram vivem no exterior.
Sei que os barrancos, dos dois lados ficou apinhado de gente. Mas foi rápido, a polícia e os militares logo fizeram o trabalho deles e já acabou a conversa. Dizem que eles estavam perseguindo os dois desde São Paulo, e que nesses casos uma força ajuda a outra. Não sei bem como é, porque os que estavam na veraneio sumiram logo que aconteceu o reboliço.
Só sei que deu muita dor de cabeça aquilo. Tive de prestar depoimento, falar porque não voltei com o barco. A sorte que tinha muito conhecido como testemunha.

Na placa, bem no início do canteiro de obras da ponte, em letras bem desenhadas, a placa de metal avisa: "Estamos construindo a integração de dois povos. Entrada proibida para estranhos."

- O pessoal da Capitania falou que ficaram muitos dias atrás dos corpos. Mas nada. Acho que isso foi rodar lá por Posadas ou Rosário. Depois de um tempo, apareceram uns caras aqui mesmo no porto, fazendo perguntas. Se eu sabia isso e aquilo. Se entendia disso ou aquilo. Se eu conhecia um tal de Humberto. Falei que não, que nunca tinha visto falar. Me mostrarm um retrato, igualzinho ao terrorista. Aí eu falei, né, com um cagaço que só vendo, que eu tinha visto naquela vez da lancha. Mas que de outro lugar, não. Me mostraram outra foto, que era a da freira, aí eu disse que não me lembrava. Perguntei o por que ele estava achando que eu sabia, mas o cara não respondeu. Só disse que se precisasse, ia me procurar lá em casa, que sabia me achar. A coisa ficou assim, meio esquisita. Só de lembrar, dá gastura, aqui, na boca do estômago.

Hoje, Tatu, marinheiro experiente, vestido à carater, não fez diferente. Pegou a bicicleta, perambulou pela entrada do canteiro de obras, seguiu até o boteco na saída do Profilurb, colocou o embrulho com quatro mandis no balcão para a Carmelita, uma gorda dona de bar, fritar. Pediu sua 51, das de sempre, resmungou amargo para algumas histórias e riu de outras. Depois, quando chegou a calmaria do causo de um outro marujo, cigarro aceso, com o olho bom brilhando mais do que o de vidro, agradou o filho franzino de um amigo com os mínimos detalhes daquela do casal argentino. Os outros parceiros de bar, como era de costume, prestaram atenção, ouvindo em silêncio.

* Silvio Campana é jornalista em Foz do Iguaçu.

 

 
 
 
 
 
 
 
 
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