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PALAVRORIO

Quadro Vivo

(*) Thiago Lopes da Silva

 

Fazia certo tempo que Fulano estava ali. Seus pais haviam morrido enquanto ele era garoto e, sem nenhum parente que pudesse cuidar de sua criação, ele acabou sendo comprado por Senhor, talvez o homem de mais posses da região. Já no castelo, ele aprendeu a se portar na presença dos criados mais velhos, de visitas e de seu próprio senhor. O seu trabalho na casa envolveu um espantoso treinamento para agüentar as horas em pé, mas depois de acostumado, nada mais o cansava. Enfim, a ocupação que lhe fora dada logo de início foi a de “quadro vivo”. Sim. No primeiro dia ele já sabia de seu destino nos planos de Senhor, entretanto, não sabia por que aquele homem tão poderoso gostaria de colocá-lo em um espaço decorado para apreciá-lo.
Pois era verdade também que Senhor, apesar de rico e assaz inteligente, era bem apessoado, sempre trazendo à casa as mais lindas e distintas mulheres de Reino para finais de semana de puro amor sem compromisso. Não podia supor, então, Fulano, que o homem fosse um homossexual, como tanto havia na corte do reino.
Na exagerada e magnífica mansão havia toda quantidade de servos, muitos dos quais viviam aparentemente felizes, porém, sempre com uma reclamação na ponta da língua. O problema era que, absortos nos espetáculos, eles se esqueciam do cansaço de seus labores e nunca se enraiveciam, acendendo as tochas e imitando uma rebelião como muito ocorria nos reinos próximos a Reino. Contemplavam, assim, a liberdade, sem nunca passar da fase de ponderação. Perdidos em seus fazeres, pareciam até não querer deixar a escravidão.
Bem, e Fulano não era desigual aos demais. Queixava-se sim de seu trabalho como “quadro vivo”, no entanto, sua situação era a mesma há mais de doze anos. Crescera ali e já chegava ao final do quarto lustro de sua vida, sem nem ao menos juntar economias para, quem sabe, um futuro de alvedrio.
Sua mãe sempre dissera que ele era especial, e, por mais que dissessem que não, ele também sentia isto. Sendo assim, admirava a Praça da Constelação sem sequer querer tocar em nenhuma das senhoritas que por lá passeavam, pois sabia que era estritamente proibido o comprometimento de um serviçal com uma donzela da corte.
No fundo, sabia que, o que mais desejava era poder nascer novamente. Quem sabe nalguma família de fidalgos, cursar Medicina ou Direito e casar com qualquer moça especial que quisesse; então viver feliz em Reino, criar seus filhos e morrer em paz.
Sonhos, entretanto, são apenas desejos da alma e seus clamores muitas vezes não são ouvidos pelas realidades dos viventes. E esta era absolutamente a verdade mais cruel que Fulano jamais poderia arrostar.
Foi num dia de labuta árdua em seu papel como “quadro vivo” que ele deslumbrou pela primeira vez a beleza de Estrela. Era uma beleza clássica, tanto na perfeição dos olhos verdes quanto na maciez visível e alvura plena de sua pele. E seus modos também deixaram boquiaberto o rapaz de maneiras absortas e miseráveis. Mal sabia ele, contudo, que Estrela sempre ouvira falar dos famosos “quadros vivos” de Senhor e sempre quisera conhecê-los. Achara, deste modo, esplêndido a maneira como se portara o servo do dono da mansão.
“Olha para este, querida. Preste bastante atenção ao cenário. Verás que nem tudo é o que parece!”, falou Senhor, pomposo, sentindo-se engrandecido sobre o labor escravo e sobre as expressões falsamente alegres que ali se encontravam.
“Sim. Nem tudo é o que parece”, repetiu a garota, fitando seus luminosos olhos nos de Fulano, que chegou a tremer e quase desfez a arte da qual fazia parte.
À noitinha, ainda pensava na linda donzela que lançara na escuridão de seu cativeiro um feixe de luz. Talvez fosse apenas ilusão da mente cansada dele, mas, se houvesse uma mínima chance de ele viver aquela paixão, ele não se importaria com a forca.
E foi isso que o adveio nos seguintes dias. Sabia, por fontes mais que seguras – seus colegas, criados do castelo –, que ela era noiva de Senhor. Estrela praticamente fora criada com Senhor como seu pretendente, pois serviria de pagamento para alguns empréstimos que a aristocrática família pegara do senhor de Fulano. E poucas eram as pessoas que sabiam do vergonhoso passado de Senhor, que apesar das posses, continuava um plebeu.
Passaria uma semana inteira na mansão de Senhor, talvez para se acostumar com o recinto, talvez para se afeiçoar ao seu destino como cobertura do débito. O permanecer dela ali, todavia, alterava o estado de Fulano, que freqüentemente se pegava a pensar na moça em vez de se comprometer apenas com seu trabalho. Tanto que, certo dia, antes mesmo dos outros servos acordarem e descumprindo uma das principais regras de seu penoso serviço, o pobre diabo alterou detalhes do “quadro” e se pôs no lugar imediatamente de personagem da obra. Foi um alvoroço desmedido quando os outros serviçais o viram e muito pior quando seu patrão vislumbrou a obra, obra esta que não havia sido criada por ele próprio. Gritos se fizeram ouvir por toda a mansão e os chacais de Senhor estavam prestes a serem soltos para devorarem a carne de Fulano, quando Estrela interveio com graciosa voz.
“Se o senhor me permite uma apreciação a respeito, meu lorde, penso que a magnificência desta obra desempenha seu papel como engenho da mais pura arte e que há influências claras de tudo o que vosso servo tem aprendido convosco. Não vejo, então, ensejo para tal atitude punitiva”.
Senhor pensou por alguns momentos e deu-se por satisfeito em apenas devolver a originalidade do “quadro” e deixar Fulano sem qualquer refeição naquele dia. Entretanto, para o servo, a atitude benévola de Estrela para com sua humilde pessoa serviu somente para acrescer forças às suas esperanças. Desse modo, como podia ele deixar que sua condição o impedisse de olhar as estrelas, de sorrir sem ter motivo, de suspirar? Rapidamente, todos na casa já haviam percebido sua risonha mudança e Fulano podia sentir os sórdidos comentários pelo ar, pouco se importando.
Foi no quinto dia da donzela na casa, numa das poucas horas de sua folga, à vigésima hora do dia, em que ele se preocupava em se deliciar com constelações, quando acabou por encontrá-la a flutuar pelo jardim floral, mas estranhamente sóbrio. Assim que ela o viu, enrubesceu por motivo que ele demorou a descobrir: ela estava chorando.
“Cessou as atividades por hoje?”, perguntou ela debilmente.
Fulano se controlou para não demonstrar como sentia seu coração desejando explodir, para não amedrontá-la segurando-a em seus braços e consagrando aquele momento com um tão sonhado beijo. E parado ficou, vendo instante após instante sua jovem musa se aproximar e lhe chegar com particularidades a respeito dela e de sua vida, como se não pudesse falar a qualquer outro mais confinante. O próximo passo da moça foi perguntar o que mais afligia Fulano em seu cotidiano e o rapaz se espaçou ao responder àquela pergunta pueril.
“Sua presença”, respondeu ele, cabisbaixo. E imediatamente tentou remediar o que pronunciara. Porém foi impedido com um toque de um delicado dedo em seus lábios. Era o toque dela num elemento conspurcado como ele! Com certeza, nunca mais esqueceria aquele dia, mesmo se não tivesse ocorrido o viera em seguida: um longo e sôfrego ósculo.
Ao se distanciarem novamente, houve uma leve vontade de trocas de palavras, no entanto, o momento só foi celebrado pelo intenso luar e pela formosura das flores e plantas do jardim.
Ninguém mais saberia daquele momento.
No dia seguinte, Fulano cumpriu todos os seus deveres com perfeição. E chegada a noite, ele logo se livrou de sua miserável refeição na esperança de reencontrar Estrela no jardim. Suas preces caíram por terra quando foi barrado por dois servos mais hercúleos de seu amo. Estes o levaram por entre a residência para o quarto de Senhor.
Foi com abalroamento que Fulano percebeu Estrela caída ao lado da cama do dono da casa. Ela chorava baixinho com a mão no rosto, somente de camisola. De prontidão, Senhor se afastou da garota e se aproximou de Fulano com tamanha fúria que fazia os próprios soldados dele tremerem.
“Por obséquio, cão imprestável, há ainda em ti alguma perspectiva de que não sentirá as dores da morte?”, começou Senhor. “Pensavas mesmo que poderias profanar minha casa sem o devido castigo? Sim? Acreditavas que difamaria meu nome com minha noiva promíscua e sairias ileso de tua pena, ser mentecapto e desprezível?”.
Um sentimento de revolta tomara conta de Fulano. Respondeu à autoridade de Senhor sem qualquer temor, pois aceitava sua morte e cria avidamente que era por uma boa causa. Apenas o que o afligia era o destino tristonho que esperava Estrela naquele matrimônio. Enfim, as palavras de revolta lançadas ao ar foram muitas e seriam mais se não tivesse sido interrompido por golpes em diversas partes do corpo. E após estes, vieram muitos outros, todos ali, no quarto de Senhor. Mesmo assim, Fulano teve forças para dirigir-se à Estrela e prometer aliviar parte de seu sofrimento.
No dia seguinte, o que seria – pelo menos provisoriamente – o derradeiro da menina na casa de senhor, Fulano já se encontrava numa das masmorras da Casa de Ordem, esperando a hora de seu extermínio. Fora marcado por um magistrado que, sabendo do caso por Senhor, seu antigo amigo, adiantara-se em abreviar quaisquer requisitos ou enforcamentos públicos já marcados.
E, na cela, já dava pra se ouvir o apelo da população sedenta de sangue. Em poucos minutos seria o pescoço dele a quebrar para o entretenimento de todo o povo de Reino. Púbere ainda e louco de amor por uma donzela comprometida. Sem qualquer probabilidade de que seu mal cessasse, pois nem a iatromancia poderia prever quanto tempo levaria.
“Boçal, olha!”, chamou o carcereiro. “Tens visita”.
Ele olhou segurando a explosiva e corrosiva expectativa de ser sua amada a vir falar-lhe uma última vez. Vendo, por fim, que não era, permaneceu parado em seu lugar de réu confesso. Senhor, do outro lado das grades, sorria satisfeito em seu paraíso de ódio e vingança pela mácula de sua honra.
“Sabes, meu jovem. Pensei por algum motivo ignóbil, ao apanhar-te nas ruas, que me servirias de algo. Lembrava a mim mesmo quando na tua idade. A diferença está apenas no que fizemos de nossas vidas. Tu, com teu amor; eu, com minha ambição. Agora deves ver que de nada te prestou a tua escolha. Cá estou com a minha, com meus servos, bens e Estrela. Tu vais à forca e nem…”, no decorrer do discurso de Senhor, ele acabou por se calar, pois mais parecia estar falando sozinho. Sem nenhum dano mais poder infligir ao seu antigo servo, o homem soltou uma última frase antes de sair: “Não te preocupe. Ela te assistirá”.
E realmente, após subir a armação de madeira usada nos enforcamentos em praça pública, Fulano percorreu afoitos seus olhos à procura de Estrela. Encontrou-a entre os soldados de Senhor, ao lado do próprio. Os olhos chorosos, a boca contraída. Mesmo Fulano, em sua ignorância, podia entender o sentimento que se apossava da pobre deusa: a liberdade que ela conhecera, talvez a única de sua vida, estava morrendo com ele. O resto de sua vida seria a rotina de zelar pelo bom viver de Senhor, em seguida, os filhos, e por fim, um final sem nenhuma glória, na qual toda a sua essência já teria sido sugada pelo crápula.
E este foi o último pensamento de Fulano antes do alçapão se abrir e a corda se enroscar com eficácia em seu pescoço. Apesar do impacto, o pescoço do moço não quebrou, fazendo-o balançar um tempo. Ele riu por dentro ao ouvir a interjeição de espanto de todo aquele público. Não conseguiu enxergar a expressão de Estrela no meio da multidão, pois seus olhos já lacrimejavam. Em segundos já não sentia oxigênio em seus pulmões e começou a sofrer espasmos.
Ainda a esta altura pensava como valera a pena.

* * *

Ela vira nos olhos dele um destino de prosperidade. Fora interrompido por uma asneira, cujo perdão nunca seria alcançado por sua alma. Sim. Culpava-se pelo cruel castigo do rapazote, na verdade, acreditava piamente em sua culpa. Agora, já viúva, ela não via outra explicação para a morte de Senhor a não ser a proteção que Fulano lhe prometera. Afinal, o atroz gentleman com quem se casara morrera nas caluniosas núpcias que teria, pouco antes de lhe penetrar. Portanto, Estrela se via livre, só e, pelo menos em um dos sentidos, afortunada.
Chegava à noite do décimo dia de sua viuvez e uma brisa mansa agia de forma imperativa em Reino. Assim, especialmente ali no castelo de seu pai, sem nenhum agente palpável, perfumes delicados e odoríferos passeavam ao seu redor. E ela sabia que era também parte da concretização da promessa de Fulano.
Dirigiu-se à cama e deitou com leveza. Adormeceu rapidamente, sentindo sussurros tranqüilos ao seu lado. Junto da cama havia alguns livros de romances que, agora como viúva, podia ler. Tentando relaxar das tragédias que a vinham acompanhando nos últimos dias, ou seja, de tanto ler, a garota acabara por cansar-se. E dormindo, naquele momento, viu-se viajando por campos pelos quais jamais imaginara que passaria um dia. O alvitre de seu amado a acompanhava e seus lábios acabaram por tocar-se. Estrela não mais despertou, permanecendo pra sempre – ou não – naquele sonho.

 

(*) Thiago Lopes da Silva é estudante do ensino médio em Foz do Iguaçu, Pr.

 

 

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