CONTO
O diabo que te carregue
(*) Zé Beto Maciel
A primeira vez que enfrentei o diabo era muito criança. Tinha uns cinco anos. Foi terrível. A besta ficava encruada no alto de um pé de abacateiro no fundo do quintal da minha casa. Eu, desavisado, fui apanhar alguns abacates maduros – de caroço solto. Qual o quê. Impingiu um cacho de vespas vermelhas, africanas, das grandes, sobre a minha cabeça que eu desci, de mais de 30 metros , em segundos. Cheio de ferroadas pelo corpo inteiro. Não tinha como não chorar. Rosto, olhos, braços, pernas – tudo inchado.
A noite foi pior. O diabo apareceu em corpo presente. Não se disfarçou. Rabo longo, de um verde musgo escuro, chifres pontiagudos na cabeça, monstrengo de cara deformada e furiosa. Lutei bravamente e desesperado, aos gritos, o repeli do mesmo pé de abacateiro. Acordei ensopado, frio e senti que era realmente diferente das outras crianças, vizinhas, da mesma idade.
No dia seguinte. Não me dei por satisfeito. Com uma vara-pau comprida, entuxada de papel na ponta, amarrada com barbante, acendi o palito de fósforo e fustiguei o cacho das vespas assassinas. Também notei que o fundo de quintal com os pés de laranjas, mandarinas, abacates eram por demais habitados por estranhas aranhas verdes, do tamanho de uma mão adulta, as quais também arderam no fogo.
O diabo deu um tempo, mas não gostou. Me assustou outra vez. Devia ter já sete anos. Ganhei meu primeiro par de sapatos, Vulcabras, preto, de cadarço. Calcei os sapatos e fui para o quintal. Queria jogar bola e a trave eram dois pés de laranjas diametralmente opostos, dois metros, em linha. É claro, meu pai não deixou jogar com os sapatos. Tirei-os e os deixei debaixo de um pé mandarina – uma árvore frondosa, baixa, uns dois metros, de galhos rentes ao chão. Joguei a tarde inteira e esqueci meus sapatos lá. Não teve jeito. Meu pai mandou buscar os sapatos. No breu da noite, tremendo de medo, ao aproximar, a árvore inteira chacoalha-se. Foi um pavor. Não peguei meus sapatos. Só no dia seguinte.
- Não adianta chamar esse menino de Mazaropi. Vou benzê-lo, traga os panos brancos e coloque nele. Talvez passe. Ele vai melhorar – disse Dona Délia à minha mãe. Dona Délia, uma paraguaia, da sua casa no Boicy, curava de tudo. Desde bucho virado até tosse comprida. Foi a única a descobrir que meu irmão engoliu uma perna de boneca que ficou entalada no estômago e depois no intestino. Só foi expelida depois de usar o paninho branco benzido por dona Délia e os goles dos chás de marcela e de hortelã.
Eu tive de tudo que Dona Délia pudesse curar. Até desenganado por médico fui. Tive que voar de teco-teco do exército para pegar ar rarefeito pelas manhãs. Do aeroporto do Gresfi, umas voltas pela cidade, centro. Tudo para curar a tosse comprida. Sem falar na catapora – me deixou marcas no rosto, no sarampo e na sarna que ardia no meu corpo depois dos banhos de miticoçan.
Tudo isso dona Délia curava. O que a intrigava dona Délia, a minha mãe, comadres e vizinhas era meu olhar distante, meu medo absoluto, a falta de jeito para tudo, de coordenação motora, as febres renitentes, não identificadas, um garoto mirrado, sofrido e perturbado.
E assim foi-se minha primeira infância. O diabo sumiu quando comecei a estudar, ir para escola. Primeiro na escola Jorge Schimmelpfeng na Quintino Bocaiúva, que para meu desespero e fascinação funcionava ao lado de um centro espírita e o seu sótão cheio de fantasmas.
Vale um parêntese: à frente da escola estava o campo do ABC, onde meus pais tinham morado. Meu pai, lateral esquerdo - o cavalinho do ABC. Minha mãe tomava conta do bar e já pranchava o facão nas amigas do pai. Não vivi esse tempo. Só meu irmão mais velho. E as minhas duas irmãs que nasceram lá.
Se o diabo sumiu - aparecia de vez em quando -, outros seres passaram a fazer contato. Bichos muito estranhos que me faziam companhia, quando o meu corpo formigava todo e eu experimentava as primeiras purgações. Seres tão assustadores quanto o diabo o que tornou muito difícil a minha convivência. Não marcavam a hora, bastava um pouco de abstração, lá estavam eles. Nas febres delirantes, então, era um verdadeiro pavor.
Agora eram as rezas da dona Rosa Maicrowski, comadre de minha mãe. Uma senhora meiga, católica, de voz pausada, que pegava seu terço e rezava padre nosso, ave Maria, para ver se as coisas resolviam. Nada. Dona Rosa me ganhou com ovos de páscoa que eram feitos com ovos de galinha. Ou seja, os ovos de galinhas eram cheios de amendoins caramelizados, fechados com papel fino, nas cores azul e rosa. Sua casa ficava perto a uma quadra da escola, o Centro, na Quintino Bocaiúva.
Também não adiantou. Entrou a pré-adolescência, a adolescência e eram os ataques epiléticos. Corpo formigava e fui ficando, mas ficando, muito esquisito. Nada marcava hora. Tudo me transtornava e me deixava acuado. Para enfrentar o espanto, virei um dissimulado.
Eu já sabia que mexia as coisas, fechava as portas, abria janelas, derrubava copos, talheres, quebrava pratos, sumia com os objetos, ficava na ponta pés, andava pelas paredes, fugia de casa, me escondia nas copas das árvores, pairava no ar por alguns segundos.
- Como é que você foi parar aí em cima. Desce já daí que vou te sapecar de vara – dizia a minha mãe. Ao contrário dos outros irmãos, eu corria pouco, morria de medo, mas levava uma baita surra que acabava sempre com a mesma expressão: - Tem medo, mas não tem vergonha.
Com medo e com vergonha, continuei os meus truques. Passei a ler o que os professores pensavam e escondiam, tirava nota 10 em tudo e quando inventei a epilepsia, deixei a maquininha do eletro-encefalograma biruta com tanto registros de hiperpnéias, oscilações disformes nas atividades cerebrais e traços de demência moderada.
- Demência moderada, humpf. Daí para um gardenal por dia, um e meio, foi um passo. Resumo dessa fase: o fenobarbital me deixou fora do Exército. Era mais um caso de caso pensado por mim.
- O seu filho está andando com roupas de saco na rua!
- O seu filho desrespeitou a professora Didi e foi expulso da turma, quase foi expulso do colégio!
- O seu filho não vai mais às aulas, perdeu ano!
- Já te disse para você cortar esse cabelo. Meu Deus do céu, quando você vai tomar jeito. Virou a vergonha da família.
- O seu filho foi pego fumando maconha no corredor da faculdade. Chamaram até a polícia.
- O seu filho só anda com viado, agora está fazendo teatro.
- O João Leitão, filho do Wansdcheer, disse que seu filho vai todo final de semana na chácara na estrada velha de Guarapuava, pegar fungos para feira de ciências. Mas na verdade, o João disse que ele cata aquela droga que nasce da bosta da vaca.
- O seu filho só anda com puta, uma mulherada que não presta, veja só essas fotos. Pegaram ele com duas na barraca dos professores grevistas na frente do Núcleo.
- Eu não acredito que você vai me trocar eu, doutora em lingüística da Unicamp, por uma bailarina argentina. Vou fazer o teste de aids.
- O seu filho não sai mais da favela do Monsenhor. Só anda com aquele Xulé, aquele que anda descalço pela rua e aquele tal de Nil – aquele mesmo que foi morto pela PM.
- O seu filho engravidou a minha filha, mandou ela fazer aborto e ela não quis. Agora ele não quer assumir a criança.
- Veja só a revista que seu filho inventou. Tem um pinto bem grande na capa e só fala sobre droga e contra Deus e a Igreja. Isso ele distribui nas ruas.
- É comadre, o seu filho não tem jeito mesmo. São aqueles problemas que ele sempre teve. Me lembra o Jaime, filho da Dona Nega, esse coitado morreu, fugido da polícia. E Nil, filho da Zinda, esse foi morto pela PM. Ah, do Nil eu já falei. Esses filhos, né comadre, a gente luta tanto para criá-los, dar boa educação, e eles não reconhecem e só fazem a gente passar vergonha. Às vezes me pergunto, o que a gente fez para sofrer tanto assim, para ter esses filhos tão desnaturados. Quer mais um mate, comadre? Coitada, dormiu de novo na cadeira.
- Seu filho da puta! Eu não quero saber de você mais nesta casa. De hoje em diante, você não é mais dessa família. Não respeita seu pai doente, sua mãe doente, seus irmãos. Você é um diabo em forma de gente! Suma daqui!
Eu era esse filho: o diabo. E tal qual a música do Cazuza, tinha virado de quase tudo, além de bicha e maconheiro. Foram bárbaros e terríveis os anos dessa adolescência que se espichou por uns 20 anos além da conta.
Passei a viver de bar em bar, de pequenos bicos, pequenos escritos, trabalhos temporários. Invariavelmente era demitido: três meses, seis meses, durava, no máximo, um ano no emprego. Não suportava mais ninguém, via a natureza humana nua, brigava com os amigos, fechava a cara, me embriagava feito o meu tio Litro Lopes.
Fui remediando aos poucos e chamado na prefeitura. Serviço público. Trabalhei direto por seis meses, full time , funcionário exemplar, até o ataque cardíaco. Nem preciso dizer que mexi nas agulhinhas do eletrocardiograma. Hoje, aposentado por invalidez, sentado na mesa de um bar, com tanta coisa para fazer, para falar, olho por baixo e coço o saco.
E o diabo?
- O diabo que te carregue.
Leia mais um conto de Zé Beto Maciel (*) Zé Beto Maciel é jornalista em Curitiba. |