CONTO
Reflexo
(*) Beth Vilasboas
Vestiram-no com bata branca e o levaram à sacristia. Louro, olhos claros, era um anjo incensando o altar. No segundo domingo do tempo comum, fingiu tosse seca e dor de garganta, mas não tinha febre, então: bata branca e fumaça santa. Odiava a felicidade dos meninos que disputavam o sino, o turíbulo, a bíblia e a vela. Ele queria dormir e andar de bicicleta. Um dia explodiu. No meio do sermão, levantou-se e gritou para o padre:
- Ah, pare de contar mentiras!
Sua mãe teve dor no peito. O pai, atônito, levou-os para casa. Desde então, naquela família, ninguém mais se impôs ao menino herege e ateu.
Chegado o tempo, cursou contabilidade e montou escritório. Aprendeu a arte da maquiagem contábil, arranjou alguns bons clientes e, para agradar a um deles, contratou uma estagiária.
Gostosinha e sorridente, como convinha ao cargo, Marcinha era movida por uma forte necessidade de aprovação. Mantinha-se sempre atenta, disponível e bem humorada. Causou, pois, estranheza, quando ao receber um telefonema, desatou a chorar. Acudiram todos, sob o olhar desconfiado do patrão. Nada se apurou sobre o destempero da jovem, que, a partir deste dia, começou a murchar. Tornou-se séria, fria, ríspida. Às vezes, distraía-se e assumia um ar de beatitude, que era uma afronta para André Luiz. Ele já pensava em substituí-la, quando Marcinha ultrapassou os limites de sua paciência, ao aparecer toda coberta e de preto, apenas com o colarinho, ou melhor, a gola, branca, agarrada no pescoço liso e macio. André Luiz nem a deixou sentar-se. Não podendo suportar aquilo, gritou, furioso:
- Dona Márcia! Passe! – apontou o interior de sua sala.
Sobressaltada, ela caminhou para ele, com o andar rígido de um soldado. Ele bateu a porta e cerrou a cortina da janela falsa. Hora e pouco depois, voltou a estagiária, pisando sobre as bordas dos sapatos, como se fossem chinelos e graciosamente desalinhada. Folgou o resto da tarde e, na manhã seguinte, veio rebolante, num jeans apertado, com uma blusa decotada e o rosto afogueado de menina maliciosa. Consideraram uma cura milagrosa. O caso chegou aos ouvidos curiosos da mulher do tesoureiro, a qual solicitou um entrevero com o “santo”, como condição para não dizer o que pensava sobre o “milagre” e denegrir a imagem da empresa. A entrevista foi concedida, em atenção ao bom e desenxabido empregado. Quando ela saiu, hora depois, passou pelas mesas, sem enxergar ninguém. O marido atrasou-se, pela primeira vez, no dia seguinte, mas chegou muito bem humorado. Empregados, clientes e conhecidos passaram a buscar a sala do contador, que não era sequer simpático. Enquanto escrevia, revisava e assinava documentos, grunhia monossílabos, fazia perguntas imbecis e resmungava palavrões. E eles falavam e perscrutavam seu semblante indiferente. Quando bem entendia, ele arrematava:
- E tu? O que tu queres fazer?
- Ah, eu quero isso, aquilo e aquilo outro, mas...
- Faça! Se for bom pra ti, faça!
Pronto. Iam-se donos do mundo, sujeitos de suas mal fadadas e mal contadas histórias. Com poder para pôr, dispor e propor. E o melhor é que, extremamente gratos, queriam retribuir-lhe o bem, queriam pagar-lhe pela consulta. Ele contabilizou isso e correu para a Universidade. O canudo enquadrado decorou a parede do consultório. Recorreram a ele, mulheres em sua maioria. Algumas eram mesmo desatinadas. Detestava aquelas com cara de Maria Madalena. Um dia, sua sala foi invadida por uma desvairada, que entrou como uma lufada de vento. Metade dos cabelos presos e metade desgrenhados. Trajava terno marrom, com corte masculino, sobre blusa preta. Com aquela maldita golinha alta e redonda. Ela falou, ele ouviu, ela chorou, ele ofereceu o lenço. Quando a percebeu calminha, mandou-a olhar-se no espelho e observar bem sua triste figura. Deplorou sua vestimenta e penteado e condicionou seu atendimento à mudança de estilo, alegando ser parte importante do tratamento e para o resgate da bela mulher que havia dentro dela. Mas, havia bem mais que isso dentro da fera. Enfurecida ela quebrou o espelho e a cara dele e partiu, ciclônica. Voltou, no entanto. Ele reservou para si a cadeira bem no cantinho e só arriscou a dinâmica do espelho após dois meses de sessões bem sucedidas. Ao final de um período, a mulher estava totalmente externalizada. Fez publicidade entre as amigas e com isso criaram um banco de fofocas terapêuticas, que era consultado bilateralmente. O doutor divertiu-se até ficar incomodado pela teia que elas iam tecendo ao seu redor. Tentou dar alta para duas ou três, mas elas surtavam imediatamente. Ele mudou de endereço e de telefone. Elas o encontraram. Queriam ser ouvidas, abraçá-lo, provocá-lo. Ele recorreu aos colegas psiquiatras e internaram os dois casos mais graves. As outras recuaram, deram uma trégua e mudaram de tática. Mostraram-se mais dóceis e amigáveis. Não mais inventavam histórias mirabolantes, apenas se diziam com dificuldades para elaborar uma nova descoberta, um trauma recente, ou para lidar com o trabalho, o relacionamento, o aniversário dos filhos, o modelo de um biquíni... Enfim, ainda não estavam devidamente niveladas. André Luiz se encheu. Decidiu voltar pro Rio Grande amado. Com a mala abarrotada, apresentou-se ao balcão de passagens. A mocinha que lhe sorriu pareceu-lhe conhecida.
- Pensando em sair da cidade, doutor ?
- Pois é.
- Pediu permissão?
- Como é?!
Marcinha anunciou no autofalante:
- Dr. André Luiz está tentando fugir.
Um alarido se ergueu. Elas brotaram em todos os cantos e o rodearam, falando, gesticulando, desaprovando. Calaram-se de repente e, formando um corredor, deram passagem a um ser brilhante de reflexos, um enorme espelho. Quando André Luiz viu sua imagem assustada, completamente refletida, seus olhos se dilataram e sua boca se escancarou, num grito mudo. Com mãos loucas arranhou o próprio pescoço, dilacerando a garganta na tentativa de arrancar o branco e clerical colarinho que o sufocava. Este, porém, era parte de si mesmo. Perdia a razão. Dobrou os joelhos e resvalou para o chão, encolhendo-se até a posição fetal. Fechou os olhos, imóvel. Fez-se escuro e silêncio até que, insistente, o repicar de um sino chamou-o para a primeira missa da manhã.
(*) Beth Vilasboas é formada em Letras.
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