CONTO
A senhora se chamava Fátima
* Fabiane Colling
A senhora se chamava Fátima e eu estava num ponto de ônibus: “Você viu se o ‘Três Lagoas’ já passou?”.
- Não passou, não – eu disse.
- Há quanto tempo você está aqui?
- Cinco minutos.
Quando pára um carro bacana e um cara desce. Olha a porta de trás e o bagageiro, arruma a mercadoria e novamente se vai.
- São policiais. Eles sempre pegam as mercadorias das pessoas para eles – conta-me a senhora.
- Podem ser apenas pessoas que fizeram compras no Paraguai e estão com medo de passar pela federal.
- Pode ser. Mas eles sempre pegam para eles, os policiais.
Acontece mesmo. Tenho um amigo que trabalha na receita que tem muitas histórias.
Infelizmente, não posso contar aqui quem é meu amigo. Nem sei o nome completo da senhora, a idade. E minhas informações jornalísticas acabam por se tornar um texto literário. Tanto é assim, que até preferi o gênero na escrita.
A filha de Fátima trabalha no Paraguai. É “laranja”.
Até paramos um pouco de usar esse termo por aqui. Também não “passam contrabando”. Essas pessoas não “trabalham no comércio ilegal” e nem “sonegam impostos”. O pessoal começou a falar que eles “trabalham na ponte” (da Amizade).
A filha de Fátima trabalha “com” o Paraguai há 15 anos. Na primeira vez que fez compras por lá, passou tranquilamente com uma van de vidros escuros lotada de mercadorias caras. “Mercadorias caras” são como se chamam os aparelhos de informática e eletrônicos.
Mas depois da bonança, sempre vem a tempestade. Filha de Fátima perdeu muita coisa no decorrer dos anos. Em uma batida aquática (e eu achei muito engraçada essa minha expressão) mais recente, ela perdeu “12 ou 13 sacolas fechadas”, como nos conta Fátima.
Para quem vive “acá na Foz”, entende qual o tamanho das sacolas e como elas são. Mas explicando: essas sacolas são caixas grandes, de até 1m³, enroladas em plástico preto e adesivadas, para que fiquem impermeáveis (pela segurança de se passar pelo rio).
Neste dia, a filha da senhora estava com o pai. Ele a acompanhou, pois ela estava prestes a dar à luz. “Faltavam dois dias para ela ganhar neném”, diz Fátima. Dois dias!
O marido de Fátima foi preso. Ficaria na cadeia por 30 dias. A filha queria tirar o pai de lá, mas isso custaria R$7.000.
- Falei pra minha filha: “Trinta dias passa rapidinho, ele nem vai sentir”. Mas ela insistiu, disse que estava muito frio.
Hoje, ela prefere passar mercadorias com os motoboys. Esconde na parte traseira e tudo acontece bem rápido.
- Eu acho que meu ônibus mudou o horário – falei quando o assunto encerrou.
- Tá muito atrasado?
- Uns 10 minutos.
- Olha lá, não é aquele?
- Foi só falar.
- Verdade.
- Qual seu nome?
- Fátima.
(*) Fabiane Colling é estudante de Jornalismo, em Foz do Iguaçu. Conto publicado originalmente no site Megafone.
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