COMENTÁRIO
História, prosa e ficção
nos Ais de Campana
(*) Zé Beto Maciel
Fábio Campana já não me engana mais. Já o conheço bem dos seus livros. Sei por onde se esconde, como se revela e de suas vinganças, às vezes contidas, outras exasperadas. Ai - 182 páginas, Travessa dos Editores – tem um pouco disso tudo: história, romance, prosa e ficção. Não necessariamente nesta ordem, mas muito bem esgrimado com uma personagem que não existe mais. Nem para Campana. Muito menos para mim.
Foz do Iguaçu, como não poderia deixar de ser, volta ao centro, com a geografia, personagens recônditas, algo para se esconder, pouco para se falar, e algum desvelo. Tudo começou - ou mal começou ainda, tomara - com Paraíso em Chamas (1994), seguiu com O Guardador de Fantasma (1999), continuou com Todo Sangue (2004), avançou com O Último Dia de Cabeza de Vaca (2005) e, novamente como um daqueles beques do ABC, uma nova cotovelada, em Ai.
Paraíso é poesia. O Guardador faz ponte entre a saída de Foz e os tristes, os cruéis, e os bons anos de Curitiba. Está tudo lá. De políticos aos pyragues, de amigos às amadas e amantes. Dos sonhos, dos sofrimentos e dos amores.
Todo Sangue é toda Foz do Iguaçu. Último Dia encosta Cabeza de Vaca e seu celibato doentio entre as cunhadagem dos guaranis e a esbórnia e a rapinagem dos espanhóis, portugueses, ingleses e franceses que se entroncaram nas bandas da foz do Iguaçu com o Alto Paraná.
Ai vai mais além. Voltam Carlos, Marta, Kid Chocolate, mães, pais, tias, tios e avôs e avós. Há muitos outros novos: Guaxo, Vithorino, Paulino, Montesinos, Izabel, Charles, Duarte, Madalena... Tudo para pendular o final do século retrasado e os anos 10, 20, 30, 40, 50, os tempos mais atuais, memórias tristes, reminiscências, numa narrativa ubaldiana de Viva o Povo Brasileiro. É comum a profusão de personagens e também que se perca os ganchos, os elos entre o tempo e o espaço nos seus 35 capítulos. Mas é muito mais.
Campana revisita Descoberta de Foz do Iguaçu e Fundação da Colônia Militar - de José Maria de Brito, 1938, 112 reeditado pela Travessa dos Editores em 2005 – e da historiografia parcial pontua parte dos capítulos de Ai. Em especial, o berne que se entranha no nariz do tenente Baptista e que deixa sua face deformada. A simples menção no livro de Maria de Brito vira capítulo inteiro.
Outras passagens da tropa de Belarmino de Mendonça e José Joaquim Firmino e os primeiros anos da colônia, os ervais, as madeiras de lei, os primeiros senhores da terra – registrados por José Maria de Brito – se adensam e ganham fôlego na prosa de Campana.
O glorioso embate de Kid Chocolate com um boxeador argentino, vulgo Luqueño, também ganha uma narrativa mais detalhada. O mesmo Antônio Gonçalves tinha passado por Todo Sangue. Quem diria: Gonçalves se inspirou num Kid Chocolate cubano, Eligio Sardinas Montalvo, boxeador, morreu em 1988. O Kid Chocolate de Foz morreu em 2006, sozinho, num quarto, debaixo da arquibancada do estádio Pedro Basso.
Tudo que é de Foz está no Ai de Fábio Campana. O apelo por uma Foz que não existe mais lembra o filme Terra de Índios, de Zelito Viana. Numa cena emocionante, a produção grava a voz de uma índia, a última de sua tribo, a última de sua nação. Ao ouvir sua própria voz no gravador, a índia tenta um diálogo impossível: aonde estão meus pais, meus irmãos, meus tios, minhas tias, meus amigos? Aonde estão todos? O que será de mim, deste lugar? O que será daqui?
Aonde estão a Dona Carlota, a Dona Délia, o Quati, o Passinato, a chipeira paraguaia, os Acadêmicos, os clássicos do futebol, do futebol de salão, o ABC, o Guairacá, o Vasco, o Flamengo, o Maneco, o Bilo, o Artêmio, o Mozart, o Cientista, a Cláudia Beatriz, o João Leitão, os quatro paraguaios seqüestrados, o coronel Toledo, a Maria Matilde, o Raul Quadros, o Sargento Reis, a Tia Júlia? Todos, absolutamente todos, estão à espera de Fábio Campana.
(*) Zé Beto Maciel é jornalista em Curitiba, Paraná.
Leia um conto de Zé Beto Maciel, clicando aqui.
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