Numa fronteira
(*) Marcio Renato dos Santos
Quando nos encontramos eu estava na fronteira. E você? Não? Eu nem aqui nem ali. Talvez nem lá. Nem lembro onde estava. Faz tempo. Sei que estava numa fronteira. Num ponto ou numa ponte entre isso e aquilo. Num limite. Do quê? De quase tudo. E você?
Não usava relógio. Lembra? Ainda não uso. Você sabe. Lembro disso porque não sei marcar o tempo, especificamente, desde que a gente se viu. Já faz tempo, não? Não apenas tempo de relógio. Tempo também de relógio sim. Mas que tempo era mesmo e foi aquele quando nossas vidas se aproximaram? Tempo de ponteiros parados? Ou o contrário?
Quando te encontrei estava numa fronteira. Ou num abismo? O chão havia sumido sim. Um horizonte que se estabelecera, em três segundos, desapareceu. Isso antes de você chegar. E você, em que terreno pisava? Onde seus pés tocavam antes de você chegar na minha estrada?
O mundo, território inimigo. A existência, nonsense. O sono, inexistente. O dia a emendar na noite e logo madrugada, pesadelo contínuo. Assim se faziam e se fizeram os tempos, muitos meses, antes da sua chegada. E choveu, lembro agora, na tarde que se fez noite e momento em que eu veria, fatalmente, você. Eu caminhava no abismo. Ou numa fronteira?
Quando as nossas trajetórias se encontraram a bicicleta do meu desespero circulava em alta velocidade. Os pedais rodavam ininterruptos. E o que se apresentava era um eu com tremores, ausência de sono, descontrole, quase total, entre outras ausências. Havia sem eu ainda saber uma ausência que era o que marcava: a sua até então ausência.
Se não nos encontramos antes, foi por um triz. Por uma mesa. Por metros. Por minutos. Talvez segundos. Por bem pouco. Havia conhecidos e outros elos comuns entre nós. Quem sabe, sentamos próximos em um bar, restaurante, evento numa mesma noite, numa mesma hora, num mesmo tempo? Será que nossos corpos não estiveram dentro de carros próximos diante de um mesmo sinal vermelho? O fato é que o sinal verde abriu para nós dois num tempo em que a bicicleta do meu desespero seguia em disparada. Quase no limite. Numa fronteira.
Isso era uma fronteira.
(*) Marcio Renato dos Santos é jornalista, mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Vive em Curitiba.
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