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O Colecionismo de Lastanosa

(*) Nara Oliveira

 

O projeto Lastanosa é uma iniciativa da Holoteca do Centro de Altos Estudos da Conscienciologia - CEAEC e tem por objetivo estudar a história de vida de Juan Vincencio de Lastanosa.

A exposição biográfica Lastanosa: O Agitador Intelectual do Século XVII tem a segunda exibição no Ecomuseu de Itaipu de 16 de outubro de 2007 a 02 de março de 2008.

A mostra contempla arte, cultura, ecologia, ciência e filosofia.

A exposição exibe painéis biográficos, obras do autor e de autores do Círculo Lastanosino, catálogos e objetos do acervo da Holoteca do CEAEC, ilustrativos do colecionismo de Lastanosa, no Século XVII.

São 279 artefatos do saber, classificados em 16 tecas na época, que hoje, passados 4 séculos, poderiam integrar a classificação de pelo menos 48 diferentes coleções.

O colecionismo é uma atividade cognitiva tão antiga quanto a história do homem. A classificação de objetos tem sua origem na pré-história. Coletar e diferenciar coisas são ações que integram o processo de evolução da nossa espécie.

De um modo ou de outro, somos todos colecionadores. Além de coisas, colecionamos lembranças, sentimentos e idéias.

Grande parte dos objetos, resultantes da produção humana, nasceu na subjetivade do mundo das idéias. A subjetividade humana, portando, constrói significados e representações edificados das pequenas peças às criações monumentais.

Neste sentido, as ideologias estão corporificadas no mundo material representando um alfabeto ou repertório iconográfico que reforça, através da forma, valores e visões de mundo.

Existem, portanto, formas que favorecem a cosmovisão, retratando a realidade histórica da humanidade e a interdependência das culturas, e formas refratárias que alimentam o monoideismo e a miopia cultural.

Lastanosa, há 4 séculos, vivendo na Europa, fez do seu palácio um museu universal, abrindo suas portas para idéias, pessoas e coisas procedentes de vários locais do mundo, subvertendo as tendências nacionalistas e regionalistas.

O público, as pessoas de modo geral, são atraídas por idéias e coisas conhecidas, à semelhança do que possuem como bem, referência ou informação, e, também, por idéias e coisas desconhecidas, motivadoras de dúvidas, curiosidades e suposições.

No colecionismo investigativo da Holoteca, os artefatos do saber são a matéria-prima, a curiosidade, a dúvida e a suposição, são a essência da investigação. A Holoteca é o ambiente, o laboratório de experimentação, e os pesquisadores, os protagonistas de descobertas renovadoras, geradores de um clima intelectual favorável a trocas e debates sobre os mais variados temas de interesse.

Disponibilizar tudo, de forma aberta e universalista, democratizar o acesso e estudar o homem e suas produções expande as visões de mundo, corrigindo as distorções segregacionistas próprias da miopia cultural.

São as fronteiras ideológicas que criam as fronteiras geográficas. Em contrapartida, são os ideais universalistas que desconstroem barreiras de convivência.

Uma das premissas presentes nas pesquisas biográficas é a de estudar os processos pelos quais pessoas, no decorrer de suas vidas, constroem sua autonomia, provocam mudanças pautadas em convicções pessoais, desvinculando-se de normas tradicionais de aprendizagem, revelando elementos de um pensamento singular.

A história de vida como método de pesquisa faz parte de uma orientação praxiológica de natureza política à medida que denuncia a uniformidade patrocinada por sistemas sociais que promovem modelos de referência através de normas de consumo cultural.

Os biografados são, de modo geral, personalidades incomuns que se destacaram por produções originais.

Lastanosa era um agitador de idéias, polímata, neofílico, promotor cultural, produtor de conhecimento, visionário e ativista intelectual sui generis . Subverteu o espírito da época, foi pioneiro no colecionismo sem fronteiras e fez de seu palácio um ponto de encontro de pensadores ávidos pelo debate.

Os Gabinetes de Curiosidades de Lastanosa eram uma exceção, apresentando no enfoque e tratamento das coleções, abordagem cultural muito à frente de seu tempo. Reuniam dentre outros objetos, pinturas, esculturas, fósseis, moedas, jóias, pedras preciosas, mapas, conchas, corais, insetos, antiguidades, além de preciosos manuscritos e obras raras. Objetos singulares, procedentes da Ásia, África e América dividiam espaço com peças vindas de diferentes locais da Europa, além daquelas oriundas, é claro, de várias regiões da Espanha.

Os Gabinetes de Curiosidades de Lastanosa e a Holoteca do CEAEC, enquanto ambientes intelectuais produtivos, apresentam semelhanças fundamentalmente em 4 posturas educativas prioritárias e libertárias:

1. Contemplar a diversidade na opção por uma educação democrática, aberta e sem fronteiras, capaz de disponibilizar tudo, sem censuras.

2. Adotar o tratamento enciclopédico do conhecimento que exige detalhismo e exaustividade nas correlações dinâmicas, contrapondo às tendências simplificadoras, reducionistas e banalizantes presentes na fragmentação do conhecimento.

3. Estabelecer uma taxologia orientada pelos artefatos do saber permitindo a criação sistemática de novas classificações, vitalizando e dando versatilidade à ordem.

Trabalhar pelo senso crítico estimulando o autodidatismo, capaz de articular progressivamente a leitura, a reflexão, o questionamento, o argumento e o posicionamento no exercício da consciência crítica.

Enfim, em maio deste ano (2007), comemorou-se na Espanha o quadricentenário do nascimento de Lastanosa, em evento denominado Projeto Lastanosa: A Paixão do Saber, promovido pelo Instituto de Estudos Altoaragonenses e, em caráter inédito no Brasil, o CEAEC organiza a exposição Lastanosa: O Agitador Intelectual do Século XVII, com o objetivo de revelar a biografia deste que foi exemplo histórico de desenvolvimento do que hoje chamamos Holoteca.

(*) Nara Oliveira é professora universitária em Foz do Iguaçu

 

 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




 

 

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