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Linhas

(*) Beth Vilasboas

 

De mãos dadas com uma mulher, eu caminhava pelas ruas centrais de Foz do Iguaçu. O medo de ser vista por conhecidos, me fazia encolher a cada passagem de carro e transeuntes. Mas, não queria largar aquela mão macia e pulsante que me levava, mansamente, por um caminho novo. Havia uma grande agitação dentro de mim. Eu não sabia desde quando me sentia assim, nem o que teria acontecido com meu marido e minha vida, tão antiga. Para onde estávamos indo? Nenhuma resposta. Nenhuma vontade de insistir nestes pensamentos, só um desejo morno de aconchego, de abandono. Fechei os olhos e fui colhida pelo vácuo. Meu corpo envolto por longos braços foi balançado de um lado para outro, sobre imenso bosque. Agora, diante de uma janela alta, eu olhava para meu ventre intumescido. A brisa tocou-me inteira, eriçando minha nudez. Não havia antes. Tênues inquietações sobre o porvir desvaneceram-se quando afaguei minha barriga e meu filho acariciou minhas entranhas.

- Cruzes, amiga! Sapatão e grávida?

- Menina, o que será isso, nesta altura do campeonato?

- Não é nada, não! Você devia estar encucada!

- É, tá tudo atrasado. Mas, e a sapatice?

- Ha, ha, ha! Já ouviu falar nos perigos dos trinta?

- Ah, sua vaca! Você sabe que já cheguei aos quarenta e sou muito feliz.

- Ora, vai ver que é uma curiosidadezinha...

- Aqui pra você, ó!

- Tô brincando! Não fique nervosa. Olha o neném!

- Ria, f.d.p.! Deixa você precisar de mim, deixa! Eu, aqui, grilada com esse sonho, venho confiar em você... E olha no que dá!

- Ai, amiga, desculpe! É que fiquei nervosa com essas novidades . E se você estiver grávida mesmo?

- Bem, se eu estiver, devo acreditar que seja um presente dos céus, né?

- Então faça logo o exame, pra ver se está bem embrulhado!

- Não! Vou esperar alguma manifestação.

- Tá com medo?

- Claro!

- E quanto à outra?

- Que outra?

- Aquela, que tá querendo escapar.

- Do que é que você tá falando?

- Alô-ou! Aquela, do armário!

- Hein?

- Ai, credo, como você é difícil. Tão preconceituosa, que nem consegue se divertir. Arromba logo esta caixa forte, liberte-se!

- Como assim?

- Relaxa um pouco, se solta. Foi só um sonho! Você continua sendo uma mulher linda e maravilhosa.

- Nossa! Você fala de um jeito...

- Me dá sua mão!

- Que é isso, Lola?

- É só a mão, sua boba.

- Ai, larga a minha mão!

- O que que há?

- Eu não acredito! Não vá me dizer que você me enganou este tempo todo! Ai, meu Deus! Logo eu, que não suporto essas coisas. Nunca consegui entender essas preferências... E, você? Você, minha melhor amiga! Como é que eu nunca percebi nada? Ai, Lola, por que você fez isso comigo? Por que não me contou? Por que entrou no meu sonho? E aquele jeito de segurar minha mão, de me levar... De me enlouquecer! E, agora? Hein, me diga, e agora? Como é que eu vou viver? O que é que eu faço, Lola?

- Juro que eu não sei!

- Já imaginou o que é que eu vou dizer pro Paulão?

- Não!

- E os nossos amigos? O que irão dizer? Por que você está me olhando assim? Fale alguma coisa!

- Lembra da Lurdinha preta?

- O que tem ela? Acha que ela vai resolver nosso caso? Ela é uma charlatã!

- Ela me ensinou algumas coisas... Eu só queria...

- Não queira, Lola! Não queira nada de mim!

- Amiga! Eu só queria ler sua mão!

 

(*) Beth Vilasboas é graduada em Letras e vive em Foz do Iguaçu

Clique aqui e leia mais um conto de Beth Vilasboas

 

 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




 

 

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