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Pegue e pague, lusitano

(*) Vicente Ávalos

 

Era uma casa. As paredes arredias escutando segredos. As paredes brancas, calfinadas, escutando segredos. Uma rua com movimento, as contas do banco de penhores, bem à frente. As contas no banco colorindo; umas pintando em vermelho, outras discutindo a valorização do dinheiro às pencas.

Os carros na rua, um de cada cor, um de cada marca. Distribuindo-se em frente ao semáforo, aceleração contínua, vencendo o aclive da esquina. Os paralelepípedos do calçamento saltando conforme os anos de uso. A rua estreitando a cada ano de uso, desproporcional a tanto movimento. Na calçada, as árvores vão quebrando o cimento. Tão duro e tão frágil, marca indissolúvel do circuito da vida.

As janelas do prédio acanhado, avançando para a rua. As meninas do prédio. As janleas ocupadas. Os braços descambando para a rua estacionada no esqueleto da cidade que envelhece.

O tempo correndo feito louco para alcançar um final ainda feliz. O tempo dos loucos correndo perante a insatisfação do final. Alegre e o rotineiro ato de ficar à janela espreitando os carros de todas as cores, de todas as marcas passarem, domingo, rumo à churrascaria, lá, na quadra de cima.

Fátima é feliz.

Fatinha. A portuguesinha da loja da subida da rua. Incrustada entre as prateleiras da mercearia; uma portuguesa mania de vender de tudo. Mania que enriquece o cotidiano da subida e enfraquece os corações de quem compra linha de pesca, ou anzol de pesca, ou vara de pesca. Ou outro produto que não seja para pescaria. Se, serve, pagamento no caixa. À vista. E pode ser arame, parafuso, tela de galinheiro. Máquina de moer carne. Passa no caixa. Enfraquece, palpita, normaliza o coração.

Fátima é assim. Afinal, uma lusitana história de recolhimento perante o mundo.

Os casamentos por correspondência. Os noivos selados com qualquer carimbo desse país. Ou em qualquer correio desse Portugal. Origem paterna, destino viável? Os noivos desse porto ainda virgem na janela, quando serão?

À espreita de uma senha, de um sinal, os olhos de santa se jogam perante as cordas e os rolos de fumo na mercearia fedorenta. É carne nova esperando o casamento. Todos os dias, todas as tardes. E as tardes, geralmente mais joviais. Ah, fazem bem ao corpo. E isso faz bem à esperança. Todos os dias, todas as tardes. Nessa indecência de esperar o semáforo abrir e os carros passarem apressados. Alinhados por marcas, por cores. Por um e outro olhar furtivo, sem que os outros saibam.

- Quanto custa o litro de soda?

Fátima é um olhar e um sorriso...

- Quanto custa o metro de chita?

Outro olhar e o sorriso de sempre...

- A gaiola pra papagaio ta vendida?

Olhos e boca. Tímidos e sorridentes.

O velho, bem disposto, com seu chapéu de palha. O moço de nariz mal traçado com seu sotaque paulista. A velha e um dinheiro rasgado, enrolado nos dedos como se o barão pudesse fugir do papel.

- Olha o balcão cheio de gente, menina!

- E esse caixa errado agora?

- Olha o trânsito antes de cruzar a rua, menina!

O velho do chapéu vai embora. O moço, embrulho no braço, coração no peito, vai embora. O moço, paulista ou mineiro?

- Raios que os parta, olha o balcão...

O banco da frente enche de filas. As pessoas fazem contas. Dedilham as notas e organizam a soma na cabeça. As janelas do andar de cima, enchem de irmãs. Contam os carros, apontam as cores. Somam o tempo nas luzes do semáforo. Todos os dias, todas as tardes.

Depois, a Lua. A rua, morta, rima com ela. A mercearia fechada, a mão na caneta e os olhos no correio. A carta despacha encantos para alguém que vai ler seu carinho.

- Há de lê-la, sim!

O sorriso, que é o de sempre.

- Fátima, o seu pai já desceu.

Os prédios amanhecem num cerco à birosca. A placa atrapalha a calçada e ensina que há homens trabalhando. A ducha de água fria e o barulho da porta metálica se abrindo, lá embaixo, a loja à espera.

Os andares do prédio em construção atacam o Sol. Depois é a fila do banco que começa a sua construção. E nas janelas, as irmãs. Tudo em seu devido posto.

Leu num livro do Fernando Pessoa: “imita o Olimpo no teu coração...” Foi a mãe quem quis. Vai à missa, foi ela mesmo quem quis. Único divertimento, Único prazer. O padre bolina palavras entre o silêncio cúmplice dos devotos. Na missa da tarde, alguém noivo. Alguém casado. E nela, as rugas, safadas, em construção.

O semáforo fecha bem na hora do carro amarelo. Desfolha a margarida. Bem-me-quer, mal-me-quer. Mal-me-quer. Recolhe a vida. Recolhe a infância do amor. Guarda o ressentimento. Outra vez o correio, outra vez a caneta, uma esperança.

A tarde vai para a penumbra. A vidraça embaça com tantos narizes irmãos. Em geral, as tardes são assim melancólicas mesmo. Lá embaixo, o rolo de tecido, o preço do arame. O semáforo ligado e um sorriso de sempre.

É a casa, é o prédio; as paredes brancas e arredias, esperando pelos segredos da noite que, ainda faz pouco, nem bem começou.


(*) Vicente Ávalos é aposentado e mora em Hernandárias, Paraguai.

 

 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




 

 

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