Conversa com a Vida
(*) Isel Talavera
Olá, Existência! Diante de ti, vejo tudo em mim. Está tudo.
A ânsia amada de amar e a mágica da Vida presente nos instantes em que deixamo-nos sentir seu brilho arrancam-me sorrisos que brotam desta alma pequena grande alma e numa nuvem aparecem subitamente a energia do movimento, da ação e juntam ideais, juntam causas a somarem-se uma à outra criando uma base a se expandir. E com certeza irá se expandir.
Encontro-me no auge da minha admiração pela Vida, não que esteja cega para os milhares de problemas que existem no mundo, da existência humana, e a mais bela percepção é sentir que respiramos! É na dialética do constante incessante, entre tropeços e sorrisos encontro uma fresta de luz que faz irradiar meu coração de contentamento. No lutar e descansar, sonhar e realizar, amar e esquecer, auto-cosntruir-me é que a chama permanece acessa, a força flui para plasmar-se em conhecimento.
Após aquele dia de chuva, houve uma tempestade de emoções no Coração da Vida e hoje o Sol brilha, porque nós temos a capacidade de fazer com que as coisas estejam iluminadas no dia-a-dia dos instantes. Entreguei-me às pequenas simplicidades e descobri a beleza da natureza, a força da paixão, e em alguns momentos sinto a sutileza da eternidade, devo dizer também, sobretudo a paixão pelo ideal. Este último, às vezes, mais forte que o próprio amor, pois não tem limites, realiza-se sem esperar receber nada em troca, causa evolução e faz sentir que a experiência humana tenha significado.
É de dia, as nuvens no céu enfeitam meu Sol, depois daquele encontro, sei que haverá uma entrega, e a certeza se conquista devagarzinho na paciência persistentemente forte. A vida nos comunica algo. Ela sempre está musicando um monologo, vezes seres dialogam com ela, eu, por exemplo, ouço sua voz doce e delicada, ouço e tento responde-la. E o que ela nos comunica nesta vida? O simbolismo da Vida reflete-se em toques naturais, a tradução... incógnita?! Pensamentos, palavras e absorção permanecem e se enraízam em nossos sentidos, causando-nos vezes aproximação, vezes distanciamento, trazem milhares de interpretações, transformam-se de repente em arte, e é esta sua função: revolucionária porque é contemplativa, não impõe limites. Sempre, quase tudo de contemplação em meus olhos; sei que existe e criamos as oportunidades, faço surgir uma idéia, um desejo a ser alcançado, e surge caindo como uma pluma, levemente cristalizando-se. Percorri rios de alento somente para estar mais perto de ti, Vida. Desnudei meus pensamentos em palavras para amar-te, vezes despi também meus sentimentos e os fundi tão loucamente com o som, com minha inspiração contribuo a causar emoções nas pessoas, mover ações, isso me fascina! E quando emocionados, uma conquista.
Apaixono-me pelo essencial amor. Sempre pensei no oferecimento do dia a dia, na possibilidade de fazer arrancar o sorriso de alguém. Um velho filósofo de 82 anos contou-me um dia no ápice da minha essência inquietante que os seres deveriam fixar-se restritamente em uma “monoidéia” , uma única idéia, única e especial, e ter só uma coisa nos vários âmbitos da vida para impregnar a alma. Depois daquele dia, passei a centrar-me em mim mesma, encontrado a Vida respirando dentro de mim, ela conversou comigo.
Agora, confesso-te que sobre mim encontrarás muita insatisfação também, de um pensamento surge um oposto, de um sentimento ocorre outro oposto, de uma a existir emoção contrapõem-se outra, encontro à síntese e corro ao meio. Confesso que te admiro tanto, e é esse o meu amor, te admiro além da minha expressão.
Quando há um tempo atrás te percebi, comoveu-me teu trabalho, e isso é o que mais me impressionou, apaixonei-me profundamente pelo teu dia-a-dia, pela tua doação em realizar aquilo que nos faz pessoas felizes, que é o desejo do bem comum; de assistir os demais. Estremeci, depois, antes de me despetalar ao vento, fui beijada pela Vida, acariciei rostos, faces, olhos, peles sendo flor... flutuei, me libertei e ao mesmo tempo tudo sobre mim expandiu-se.
Hoje não chove mais, o conhecer aproxima-se junto com o raiar, e desejo aquecer o corpo da Terra com gotas de calor. Eu Sol, desejo clarear em seu sorriso a Vida, pois não encontro lugar melhor para ficar, a não ser em invadir sua unidade com a minha multiplicidade e te fazer sentir brilho, um beijo dourado de energia surge.
Os dias passam? Não os dias não passam, o tempo não passa, somos nós quem passamos pela Vida, os dias sempre permanecem e permanecerão, o tempo permanece, nós caminhamos numa passeata material pelo tempo impalpável e perene. E neste pisar sob o chão encontram-se as forças-vontade espalhadas em muitos cantos que construirão e preservarão nossa fonte-essência. Sim. Elas existem e se fundamentam na inteligência ética, na concepção crítica e abrangente do presente-agora, na superação individual que reunirá a energia do coletivo evoluindo conjuntamente. Devagar, mas caminhando, tendo a leveza e alegria do sentimento porque se está caminhando.
Talvez agora esteja me desentocando, abrindo asas à minha vontade, rompendo o casulo e tentando voar delicadamente em um ar novo. Ontem fundi-me com a Terra, quando minhas pétalas caíram ao chão, entrei no solo fértil, pacientemente nutriram o solo, quando elas caíram a causa do Vento devastador que desejava somente sentir sua fragrância, e dito vento não sabia que ajudava a nutrir mais o coração da Terra-Vida , neste movimento transformador. Deslumbrada abri os olhos ofuscada pela luz imponente da Vida. Nutrida, também eu, de movimento transformador, sempre transmuto esta minha paixão e meu sentimento, difundida integro-me a ti, sou esperança em ouvir o sonho que tivestes, e em saber que esse sonho pode ser exposto ao Sol do meio dia. Agora vôo, alço meu rumo, transformo-me em outro ser, vou, sempre guiada pela inspiração, ficar no ar não sendo borboleta vezes machuca, mas é isto que me faz lutar neste ardor de novas possibilidades, o que nos move a querer ver novos horizontes, de preferência nos olhos seus, sempre claros.
Vida, conversamos, creio deixei um pedaço de mim cor lilás para ti, tu deixas o tudo e o nada sobre mim, sobre minhas pálpebras e minhas mãos e conto aos que passam os olhos, a visão por estas letras que eu os amos, e digo como compreendi de Roa Bastos quando deixou escrito “ Lo único nuestro permanece indecible detrás de las palabras”, que tudo está em mim, mas quase nada, porque o que há detrás destas palavras o amor ainda não veio buscar, permanece impronunciável.
Foz do Iguaçu, setembro de 2007.
(*) Isel Judit Talavera, é poeta, licenciada em Letras pela Universidad Nacional del Este, Paraguai e especialista em Estudos Hispânicos pela Unioeste, Foz do Iguaçu.
|