Passou!
(*) Beth Vilasboas
Combinaram passar o final do ano juntos, pagando promessas à Iemanjá. Duas semanas depois, Lígia foi para o litoral e aguardou o telefonema, que não aconteceu. Desistiu. O mar reluzente brincava na areia e ela desejou caminhar de mãos dadas com Miguel. Devagar subiu as escadas de madeira, rumo ao mirante. Banhistas iam e vinham. Do lado direito das Pedras de Matinhos, formava-se uma piscina, onde vários meninos brincavam, serelepes. Águas mansas, mornas, mas turvas, contaminadas. Uma pena! Bem em frente, uma barraquinha vermelha alertava em grandes letras: “Água imprópria para banho”. Um lugar tão lindo! Do alto admirou a vista, mas não se deteve, voltou e foi sentar-se nas pedras, ao pé do monumento ao surfista. Abraçando as pernas, chorou, decepcionada, ao imaginar quantos casais teriam se amado ali, na madrugada enluarada e quente, em que ela estivera à janela de seu quarto solitário, a esperar um sinal... Teria acontecido alguma coisa com ele. Ambos queriam estar juntos. Beijar-se-iam, sem tréguas e desesperadamente. Enlaçados sempre, menosprezariam o mar e mergulhariam em seus próprios olhares... O barulho da alegria ao seu redor não lhe permitiu permanecer em seus pensamentos. Limpou o rosto e seguiu rumo a Caiobá. O sol machucava-lhe a pele e os olhos, mas caminhou até cansar. Na barraca de Dona Hilda, a simpática morena, locou guarda sol e cadeira e juntou-se à massa colorida esparramada na areia quente. O movimento incessante do oceano verde, a deliciosa água de coco geladinha e a brisa a lamber-lhe a nudez deram-lhe uma deliciosa sensação de bem estar. Estirou-se de olhos fechados, curtindo aquele momento de intimidade em meio à multidão. O desencontro já não lhe parecia tão sofrível. Ficar triste à beira-mar, em pleno verão, não pode ser coisa certa! Pensou, maliciosa. E, lépida, correu para a água e ofereceu-se, sem reservas, ao ímpeto das ondas.
Ao retornar, leve e salgada, para seu guarda-sol, Ligia sentia-se renovada. Não conseguiu, porém, concentrar-se na leitura. Graciliano Ramos pareceu-lhe inoportuno. Abandonou o livro e seguiu nuvenzinhas, acompanhou pipas, observou pernas, crianças, dentro e fora das barrigas, pés... E foi assim que o viu: vinha devagar, chapinhando a água e procurando entre os guarda-sóis. O coração de Lígia disparou. Atento, Miguel estacou a poucos metros e estendeu seu olhar sobre a água e sobre a terra. Lígia encolheu-se, enredada. Prendeu a respiração. Um bafo queimou seu rosto, mas ela permaneceu imóvel, olhando fixamente para o homem que se fizera esperar tanto. Ele a buscava com ansiedade, sem poder enxergá-la. Resignado, Miguel recolheu seu olhar vazio e continuou sua passagem pela areia. Até onde puderam alcançá-los, os olhos de Lígia seguiram seus passos. Só então, ela sorveu o ar, voluptuosamente. Feliz.
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(*) Beth Vilasboas é formada em Letras e atua em Foz do Iguaçu.
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