CONTO
Quatro Mulheres
(*) Zé Beto Maciel
Atire a primeira pedra quem não fez de tudo para comer uma mulher. Pois é. Inda mais no meu caso. Recém chutado pela mãe do meu primeiro filho, morando de favor de casa em casa. Foi o que aconteceu quando conheci quatro mulheres: três empregadas domésticas e uma balconista de loja do Kassem – um árabe engenheiro que entendia muito pouco de engenharia, mas como todo árabe, era muito bom negocista e tinha uma loja na Avenida Brasil, na altura da subida do Botafogo.
Lúcia, Rosa, Zelinda e Eleonora. Os nomes das quatro.
Lúcia, a balconista, conheci quando apanhava o ônibus na Vila A depois de uma visita ao meu filho. Morava com a irmã casada com um peão da Unicon, carpinteiro. Baiana. Era linda, morena, jamba, olhos cor de mel, cabelos compridos, negros, de uma ingenuidade impressionante e de uma sapequice muito safada.
Rosa, loira de Pranchita, os dentes poucos judiados, empregada de um pastor que morava no Maracanã. Era muito engraçada, bebia escondido, fumava escondido e, é claro, trepava escondido. Tudo comigo. Conheci Rosa por telefone. Há convidei para um bar...do bar para casa da minha irmã. Fazer o quê?
Zelinda, um pouco gorda, cara sofrida, ela era muito sofrida mesmo, cabelos vermelhos para ocre, mas não eram pintados, tinha um filho, história triste. Sempre chorava. Veio para Foz, fugida de casa, de Capanema, filha de agricultores, abastada, mas trabalhava de doméstica para um diretor da prefeitura e mantinha seu filho numa outra casa. Triste história.
Eleonora trabalhava na casa da minha irmã. Morena para bugre e mulata, alta, forte, pernuda, lábios grossos, tinha namorado, limpava, lavava, passava, tudo bem. Cozinhava que era uma maravilha, tinha um segredo, depois revelado, que meteu medo em mim por seis meses. Depois passou.
- Você vai até a minha casa?
- Vou.
- O que você quer fazer?
- Não sei.
- Tira a roupa?
- Tiro
- Pega no meu pau?
- Pego.
Essa era Lúcia. Tinha por ela um amor que era quase platônico. Não transamos. Se transamos, não me lembro. Nos felamos e muito. Gozava no meio de suas coxas, nas suas mãos, na sua boca. Tirava sua roupa. Tirava sua camiseta, sempre de camiseta, tirava sua calça, invariavelmente, um jeans. Sugava toda a sua beleza, seu leite, seus olhos, suas coxas e sempre, sempre, afastava minha cabeça de sua vagina.
- Vou casar, não quero. Não era necessário. Não precisava. Lúcia casou com o sócio do Kassem, o Mohamed. Mudaram para Bahia, Salvador. A vi tempos depois na loja do Kassem. Estava coberta de chador, pegou seus dois filhos e entrou numa Mercedes. Não sei. Tem coisas que só acontecem aqui na fronteira.
Rosa era muito sem vergonha. Gostava de beber, fumar, jogar conversa fora. Seu cabelo loiro, cacheado, jogado para o alto, dava uma idade mais velha. Seus dentes surrados pelo cigarro, davam-lhe uma idade mais velha.
- Eu não posso mais sair de casa. O pastor não deixa. Eu falei que ia visitar as amigas. Ele e mulher dele, mais a filha e o filho, não deixam. Querem eu fique em casa direto. Querem até que eu vá no culto as segundas, quartas e sextas. Assim não dá.
- Por que você não disse que tem que visitar a família, irmã, mãe, essas coisas?
- Ah, é claro que eles sabem que não sou de Foz.
- Já sei, disse ela. As quartas, não precisa ir no culto. Eles saem por volta das sete da noite e voltam lá pelas nove e meia. Nesse tempo, você vai lá para casa. Tá certo?
- Tá certo. E lá fui eu.
A casa do pastor, patrão da Rosa, ficava na primeira rua do Maracanã, ao lado da antiga e já fechada Churrascaria Grenal. Muro baixo, dois portões. Um para entrada de carro e outro, ao qual abri, e bati na porta.
Rosa me atendeu com copo na mão. – Comprei a cervejinha na churrascaria, disse. Nem bem cheguei, Rosa me levou para a sala, tirou a minha a calça e começou um felatio, sua especialidade. Tirei a sua roupa. Rosa tinha seios bonitos, corpo bonito, branco. A encoxei já na cozinha, na pia. Rosa abriu a torneira, misturava água e cerveja pelo meu corpo. Até que.....
Um clarão de luz alta de carro. Barulho de abertura de portão, um carro entrando. Era o patrão de Rosa, com sua mulher, sua filha e seu filho.
- Corra, corra....E lá fui eu para o fundo quintal no escuro. Um muro alto. Eu agachado de calças nas mãos, camisa molhada de cerveja e água. Ouvi no fundo: - Rosa o que aconteceu na pia, toda essa molhação. – A torneira estragou, mas já consertei.
Eu lá no fundo do quintal, breu. Se eu pular o muro, caio nas toras de lenha da churrascaria. Vão pensar que sou ladrão. Do outro lado. Muro mais alto ainda. Fundos, impossível. Pensei, pensei. Não sabia o que fazer. Passou uma hora, duas horas. E tomei a decisão.
Andei esgueirado passei pela área de serviço no fundo da casa. O carro era um Del Rey, marron. Me agachei mais ainda e cruzei pela lado casa até chegar na frente e não tive dúvida. Na varanda: bati palmas. Apareceu o pastor, bigode, típico pastor, alto, magro, cara de nordestino.
- O zé está aí?
- Que Zé.
- O Zé Carlos Gomes, que estuda no Monsenhor.
- Não tem nenhum Zé aqui.
- Ah, desculpa, pensei que ele morava aqui, adeus.
- Adeus.
Fui ao portão. Tentei abri-lo, conforme entrei. Não deu. O pastor quando entrou, na volta antecipada do culto – apagão no Jardim São Paulo, trancou o portão com cadeado. Não deu outra, pulei o muro, saí rápido e nunca mais falei com Rosa.
Zelinda era problemática. Sai com ela duas vezes, apesar dela ter insistido por mais. Fugia de problemas. Não queria dar, mas deu. Não queria chorar, chorou. Era tudo drama. Não era por menos. Zelinda era uma moça rica, filha de fazendeiro rico de Capanema, que foi parar em Foz. Trabalhava de doméstica e tinha um filho. Era esse o segredo.
- Os homens não prestam, disse Zelinda já na cama, só de calcinha, meia calça e sutiã.
- Não prestam mesmo, disse. – Mas venha para cá. Vamos conversar.
Zelinda chorava. Trepou e chorou. Chorou e trepou. Foi bom até eu gozar.
- O que aconteceu?, perguntei.
- Tenho um filho. Cristiano, de três anos.
- Que legal, incentivei. Ele mora com você.
- Não, uma mulher cuida dele no centro. Não falta nada. Fugi de casa por caso dele. A minha família não aceita. Eles não sabem que estou aqui.
- E o pai, não assumiu, por que não casou?
- O pai dele, Zelinda em lágrimas compulsivas, é o meu pai.
Puta que os pariu. O pai do filho de Zelinda era o pai de Zelinda. Um fazendeiro gaúcho, dono de gado de corte, um bom pedaço de terra às margens do rio Iguaçu. Zelinda passou a noite inteira, em lágrimas e soluços, contando todo o seu drama. Os estupros desde os 12 anos até o filho aos 17. O velho fazendeiro sabia que seu neto era seu filho. A mãe de Zelinda dizia que não sabia e os irmãos, três rapazes mais velhos, por sua vez, fingiam não saber. Zelinda fugiu até Foz e ficou um ano. Encontraram e a levaram de volta. Nunca mais ouvi falar.
Eleonora. Eu tinha que comer Eleonora. Não tinha jeito. Não havia tempo. Trabalhava em Furnas e quando chegava em casa, na casa da minha irmã, que eu morava, Eleonora já tinha ido. O que fiz?
A subornei. Dava-lhe dinheiro e nada. A agarrei pelos cantos e nada. Ela fazia um excelente doce de abóbora – aquele em cubos que se mergulha na cal e os deixa em calda. Tentei uma última cartada. Pedi para sair mais cedo da subestação e cheguei por volta das 2 horas da tarde. Fui até o meu quarto. Chamei Eleonora e conversamos. Ela não cedeu. Tentei, agarrei, ela resistiu. Peguei meu talão de cheque e fiz: Cz$ 100 mil.
Foi uma das melhoras fodas da minha vida. Eleonora era tudo o que queria. Suas pernas grossas e fortes, me prendiam pelos pés. Seus lábios carnudos e sorriso que abria dava para ver sua dentadura. Ela usava dentadura apesar dos seus 20 anos.
- Você não pode fazer isso. Tenho namorado, dizia Eleonora.
- Ele não precisa saber, dizia eu.
Passavam as semanas e os cheques em cruzados. Até que um bateu no caixa e voltou. Troquei-o na outra semana por outro, agora de Cz$ 200 mil. Esse também voltou e Eleonora, ficou furiosa.
- Não gosto disso. Se meu namorado descobrir, ele te mata. Gosto das coisas certinhas.
- Ah, para de exagerar Elô.
- Exagerar, sabe quem é meu namorado?
- Quem?
- É o Polaco Preto. Vou visitar ele todo final de semana no cadeião.
Polaco Preto era o mais barra pesada de São Francisco. Estava preso no Cadeião de Três Lagoas porque matou três. Na cadeia, aprontava. E o pior era tudo verdade. Vi Eleonora numa matéria da TV pedindo por ele numa rebelião no Cadeião.
- A senhora é mulher do líder da rebelião?, perguntou o repórter.
- Polaco não é nada disso, não. Estão querendo prejudicar ele na cadeia. Ele só quer sair nos final de semana para ver os filhos.
Gelei. Paguei os cheques certinhos e pedi para minha irmã mandar Eleonora embora porque ‘sumiu dinheiro da minha carteira'. A reportagem da TV ajudou na decisão da minha irmã.
Encontrei Eleonora tempos depois esbanjando um sorriso de dentadura nova. Passei batido.
Leia mais um conto de Zé Beto Maciel, clicando aqui (*) Zé Beto Maciel é jornalista e poeta em Curitiba.
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