CONTO
Alicate
(*) Nilson Monteiro
Zagueiro igual não havia nos campos amadores de Campinas.
"Fecha as pernas, Alicate!!!
"Não dá, seu Dair!"
Reinava, absoluto, nas bandas do Taquaral, do Guanabara, do Mogiana, em campos pelados ou de grama rala, acompanhado por um séquito, de adolescentes ou de adultos. Dizem, às centenas, ou reza o folclore dos balcões que ele fora convidado inúmeras vezes para tornar-se atleta profissional, jogador pra ser lembrado em figurinha.
"Fecha as pernas, Alicate!!!"
"Não dá, seu Dair!"
Negro azulão, andar mamolengo, falhas nos dentes, o olhar molhado de quem vira amigo no primeiro gole. O corpo de atleta. Forte, alto, bem distribuído, próprio para distribuir as gargalhadas de todo o dia. Ninguém sabia de seu nome ou de que antecedentes familiares ele brotara. Era Alicate e fim de conversa. Alicate nas construções onde erguia paredes. Alicate nos bares. Alicate na feira do bairro. Alicate nos bingos do Furasóio. Alicate na torcida da Ponte Preta. Alicate nos campos amadores.
"Fecha as pernas, Alicate!!!"
"Não dá, seu Dair!"
Novo, quase menino, e ainda um promessa. Sondado por técnicos, olheiros, cartolas, gente do ramo. Os dentes, cariados, poderiam ser arrumados. Difícil seria tornar retas as pernas em arco, quase uma esfera formada a partir dos tornozelos. Até alguns ortopedistas foram consultados pelos olheiros, cartolas, gente do ramo, Necas. Alicate.
"Fecha as pernas, Alicate!!!"
"Não dá, seu Dair!"
A final do Campeonato Amador de Campinas juntou dois rivais dedentes e unhas: o Cambuí, do bairro do mesmo nome, e o Botafogo, das bandas do São Bernardo. Alicate desfilou vistoso no uniforme azul do Cambuí, sob os olhares gulosos de cartolas, treineiros, olheiros, muita gente do ramo, além das torcidas organizadas dos bairros. O Cambuí jogava pelo empate, simples, para meter a mão na taça e inscrever-se como um dos participantes do Campeonato Amador de Municípios do Estado de São Paulo.
"Fecha as pernas, Alicate!!!"
"Não dá, seu Dair!"
A dois minutos do final do jogo, o zero a zero emocionava o Cambuí. Alicate fora uma parede, sério, tranqüilo, preciso, craque. Uma falta cometida a metros da risca da grande área, contra os azulões, puxou o coração do Cambuí para a boca. Seu Dair espumou. Ficou de costas. De lado. Voltou-se ao campo. Olhou fixo. Rezou. Gritou. Gritou. Gritou. Na barreira, Alicate e suas pernas lustrosas, brilhantes, negras, arco do triunfo. Alvo. Não só o goleiro Dudu enlouquecia a cada milésimo de segundo. Seu Dair também, berrando, esbaforindo-se, derretendo em suor.
"Fecha as pernas, Alicate, peloamordedeus!!!"
"Não dá, seu Dair!"
A carreira do Alicate terminou no fatídico um a zero para o Botafogo. Nunca mais se viu o seu sorriso desdentado pelos campos pelados ou de grama rala de Campinas.
(*) Nilson Monteiro é escritor e jornalista em Curitiba. O conto "Alicate" integra o livro 'Pequena Casa de Jornal", publicado em 2001, pela Imprensa Oficial do Paraná.
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