CONTO
HANRAHAN E CATHLEEN,
A FILHA DE HOOLIHAN
(*) W. B. Yeats
Em direção ao norte Hanrahan viajava, certa vez, parando aqui e ali para dar uma ajuda a algum fazendeiro nas épocas de trabalho árduo, contando suas histórias e apresentando seu repertório de canções em nascimentos e em casamentos.
Um dia aconteceu de encontrar, na estrada para Collooney(1), uma certa Margaret Rooney, mulher que conhecera em Munster quando ele era jovem. Ela não tinha uma boa reputação naquela época e o padre, por fim, a expulsara do lugar.
Hanrahan reconheceu Margaret pelo modo de andar, pela cor dos olhos e pelo jeito dela afastar para trás, com a mão esquerda, o cabelo que lhe caía no rosto. Tinha estado vagando por aí, ela lhe contou, vendendo arenques e essas coisas, e agora voltava para Sligo(2) , para o lugar próximo ao forte onde morava com Mary Gillis, uma mulher com uma história muito parecida com a dela. Seria um grande prazer, ela lhe disse, se ele a acompanhasse e se hospedasse na casa delas, e cantasse suas canções aos mendigos sagrados (3), aos cegos e aos tocadores de violino do forte. Ela disse que o guardara na lembrança e que tinha um pedido a fazer a ele.
Quanto a Mary Gillis, Margaret contou que ela até sabia algumas das canções dele de cor, assim Hanrahan não precisava ter medo de ser mal recebido; e todos os mendigos sagrados e homens humildes que o ouvissem lhe dariam uma parte de suas economias, pelas histórias que ele iria contar e pelas canções que ele cantaria enquanto estivesse com eles. E todos espalhariam seu nome pelas paróquias da Irlanda.
Ele estava muito contente por poder seguir Margaret, por encontrar uma mulher que escutaria a história das suas dificuldades e o confortaria. Era o cair da tarde, quando todo homem pode se passar por bonito e toda mulher por graciosa. Ela pôs o braço ao redor dele quando ele lhe descreveu os infortúnios da história “O Trançar da Corda” (4) e, à meia-luz, ela parecia ser outra pessoa.
O casal manteve a conversa durante todo o caminho até o forte e Mary Gillis, quando viu Hanrahan e ficou sabendo quem era ele, quase chorou ao imaginar que hospedaria em sua casa um homem tão conhecido como aquele.
Hanrahan gostou muito se estabelecer ali com elas por algum tempo, porque estava cansado de vagar. E desde o dia em que encontrara a pequena cabana destruída e abandonada por Mary Lavelle, e o sapé todo espalhado, nunca mais tinha desejado ter um lugar só dele. E nunca, em nenhum lugar, ele tinha parado tempo suficiente para ver a chegada das folhas verdes onde ele tinha visto as folhas antigas murcharem, ou ver o trigo ser colhido onde o tinha visto ser semeado. Representava uma significativa mudança para ele ter abrigo da umidade, uma lareira acesa ao entardecer e seu prato de comida posto sobre a mesa sem ter que pedir.
Enquanto lá estava, Hanrahan compôs um bom número de canções, de tantos cuidados que recebia e de tão tranqüilo era o lugar. A maioria das canções era de amor, mas algumas eram de arrependimento, e algumas falavam sobre a Irlanda e seus sofrimentos, sob um nome ou sob outro.
Todas as noites os mendigos, os cegos e os tocadores de violino se reuniam na casa para ouvir as canções, os poemas e as histórias sobre os velhos tempos do Fianna(5) que Hanrahan contava, e tudo foi mantido na memória desse público, a ponto de todo o rico material oral nunca ter sido deturpado pela publicação em forma de livro. E assim, por toda a região de Connaught, todos espalharam a fama dele, em toda festa de nascimento, de casamento e em outras festas da comunidade. Ele nunca foi tão próspero nem tão requisitado quanto naquela época.
Numa noite de dezembro, Hanrahan cantava uma cantiga que, conforme contou, tinha ouvido de uma batuíra da montanha; a canção era sobre os meninos loiros que haviam deixado Limerick (6), e que estavam vagando, desgovernados, por todas as partes do mundo. Havia um bom número de pessoas na sala aquela noite. Dois ou três rapazes, que tinham entrado furtivamente e sentado no chão perto do fogo, estavam ocupados demais assando uma batata nas cinzas e não prestaram atenção nele; mas, muito tempo depois, quando a figura dele já tinha desaparecido, eles ainda se lembravam do som da sua voz e do modo que ele gesticulava, e do olhar dele quando se sentou na extremidade de uma cama e sua sombra se projetou sobre a parede caiada atrás dele, e como ela se movia para cima, tão alta quanto o sapé. E eles se deram conta, então, de que tinham assistido a um rei dos poetas gaélicos, um artífice dos sonhos dos homens.
De súbito, seu canto parou e seus olhos ficaram cada vez mais enevoados, como se ele estivesse olhando para alguma coisa muito distante.
Mary Gillis estava colocando uísque numa caneca sobre a mesa ao lado dele; ela parou de servir a bebida e perguntou: “O que você pensa... é sobre nos deixar?”
Margaret Rooney ouviu o que a amiga dissera e, sem entender porque ela havia dito aquilo, levou as palavras muito a sério e se atirou em cima dele, e havia medo no coração dela, medo de que fosse perder aquele poeta tão maravilhoso e aquele companheiro tão bom, e um homem que era tão considerado e que trouxe tantas pessoas à casa dela.
“Você nos deixaria, meu querido?”, ela disse, segurando as mãos dele.
“Não é isso que estou pensando”, ele respondeu, “penso na Irlanda e no peso do sofrimento que existe sobre ela.” E ele apoiou a cabeça contra as mãos e começou a cantar essas palavras, e o som da sua voz era como o vento num lugar deserto:
O velho espinheiro se quebrou, adiante da Praia de Cummen,
Sob um vento negro e amargo que sopra vindo do oeste;
Nossa coragem se quebra como a velha árvore e acaba,
Mas nos corações temos a chama dos olhos
De Cathleen, a filha de Hoolihan.
Os ventos se reuniram nas nuvens sobre Knocknarea (7)
Lançado o trovão nas pedras por tudo que Maeve já disse;
Ódios, tal nuvens ruidosas, deixaram os corações em suspenso,
Mas nos curvamos humildes e beijamos os plácidos pés
De Cathleen, a filha de Hoolihan.
A lagoa dourada transbordou lá em Clooth-na-Bare,
Pois os ventos úmidos sopram do ar viscoso;
Como águas inundadas nossos corpos e nosso sangue,
Mas mais pura que uma vela diante da Santa Cruz
É Cathleen, a filha de Hoolihan.
Enquanto ele cantava, sua voz começou a falsear e lágrimas lhe rolaram rosto abaixo, e Margaret Rooney colocou o rosto sobre as mãos e começou a chorar com ele. Então um mendigo cego, sentado perto da lareira, fez seus trapos tremerem com um soluço, e depois disso já não havia ninguém que não se desfizesse em lágrimas.
1 - Vilarejo ( Cúil Mhuine ) situado numa colina a11 quilômetros ao sul da cidade de Sligo.
2 - Capital do Condado com o mesmo nome ( Contae Shligigh ), Sligo fica na província de Connacht, a oeste da República da Irlanda. O nome Sligeach significa "área onde abundam conchas". Yeats passou a infância na região norte de Sligo e a paisagem local, especialmente a Ilha de Innisfree, serviu de inspiração para boa parte de sua poesia.
3 - No original, “bacachs”, figuras mitológicas representadas por músicos e dançarinos mendigos que freqüentavam cerimônias sociais (especialmente casamentos) e recebiam donativos dos convidados. A função dos bachachs é nebulosa e, à chegada repentina deles em festividades, está associada a idéia de que eles traziam consigo boa-sorte a todos os presentes.
4 - Famosa canção popular (em irlandês, Casadh an Tsúgain ) que inspirou a peça The Twisting of the Rope , primeira peça gaélica produzida para teatro, escrita por Douglas Hyde e que estreou em 1901.
5 - Na mitologia irlandesa o Fianna ( Fianna Éireann ) era um exército (uma “família”) de guerreiros e caçadores que servia o Rei Supremo da Irlanda no século III. Suas aventuras foram registradas no Ciclo Feniano.
6 - Cidade e sede do condado de Limerick na província de Munster, no meio-oeste da República da Irlanda. Do irlandês Luimneach: Lom na nEach , que significa “campo aberto para cavalos”.
7 - Knocknarea ( Cnoc na Ré ), a “Montanha dos Reis”, é o cenário que domina a paisagem a oeste da cidade de Sligo, no condado de Sligo.
(*) W.B. Yeats é um dos autores irlandeses que comparecem na antologia "Contos Irlandeses", lançada pela Travessa dos Editores.
Leia mais sobre o livro "Contos Irlandeses", clicando aqui.
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