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CONTO

“Pensei que todo mundo...”

(*) Edu Vilasboas

Era uma esquina e a data(1) dividida em sete casas velhas de madeira. Casas?! Taperas tortas em meio a um quintal deserto de terra vermelha. Tão vermelha que tingia a já míope visão de mundo e a distorcia. Tudo aquilo jazia abaixo do nível do asfalto e da pobreza. Ali moravam de aluguel José e Maria com seis de seus oito filhos. O primogênito, como nas escrituras antigas ia consagrando-se a Deus e andava estudando, de fato, num colégio de missionários, aprendendo a cuidar de pobres e excluídos, e lá, mais tarde, faria até votos perpétuos de pobreza, para incompreensão de muitos.

– Padre ganha alguma coisa?

– Não! Não tou dizendo que fazem voto de pobreza?

– Nossa! Que profissão mais esquisita!

A segunda filha do casal, tendo deixado os estudos, estava na capital trabalhando e morando com os tios. Mandava cada mês, missionariamente, todo o seu soldo e uma cartinha repleta de esperanças e lágrimas. Ah! Que saudade sentíamos! Ela era nossa segunda mãe! Não viria neste Natal, pois o trabalho na loja HM, era intenso com as vendas de fim de ano, além de que, o dinheiro não era suficiente para ambas as coisas. O clima era diferente naqueles dias e naquele lugar. As crianças descalças, brincavam com pneus velhos Goodyear(2) que não tinham usado e latas vazias de leite Ninho(3), que não tinham bebido. A latas eram unidas umas às outras com o arame que ficava dos pneus queimados. Fim de ano e o dono do lote, Seu Geraldo, chapéu preto e cigarro de palha, vinha caiando todas as casas por dentro: uma espécie de melhoria pelas Festas. A propósito, o branco da cal nas paredes dos sete casebres era o mais próximo da neve decantada nos filmes em preto e branco no televisor de D. Laura, a vizinha de cima. Espiávamos as programações pela sua janela, trepados na cerca que dividia os menos dos mais favorecidos. Na outra quadra, a casa de D. Carmem, a catarinense, estava encantada com seus arranjos natalinos, muitas luzes, muitas cores. Era música o dia inteiro. O papai Noel de plástico todo iluminado, elevado na varanda, com barba reverenda, cercado por caixas embaladas e com fitas coloridas... Tão sorridente, fascinava-nos! Em nossa casa de tábuas esturricadas, quatro cômodos, iluminados por um só tímido bico de luz, D. Maria, boa mãe, sentada à porta, fazia cafuné nos filhos e me explicava que não iria ao encerramento da novena de natal, pois teria que levar algo para a festa de confraternização e não podia.

– Não vai ser feio faltar só na última, né? A minha obrigação eu fiz.

Deitado em seu colo, soletrei no panfleto doutra novena ou campanha ali colado:

– “Tra-ba-lho e jus-ti-ça pa-ra to-dos”.

Ilustrando estes dizeres havia um apetitoso pão louro, dividido em quatro partes iguais.

– “A-no 1-9-7-8...” Soma: 25. Vinte e cinco, só faltam dois dias!

– Vamos dormir , disse a mãe, que teu irmão deve chegar esta noite.

Acordamos com o tinir da bomba que succionava água do velho poço para todas as casas. Maria já estava no tanque, lavando as roupas alvas do filho que chegara e contava muitas novidades. Trazia consigo uma pequena flauta-doce e eram doces mesmo as melodias natalinas que tocava, até os pardais barulhentos que se amontoavam no beiral destruído da velha casa, pareciam então gorjear mais afinados.

Seu José voltou mais cedo do trabalho, pois era véspera. Pôde comprar orgulhoso do Seu João uma carroçada de peroba rosada pro fogão a lenha, restos de boa madeira, muito usada pelos carpinteiros de então, e que aqueceria também a água pro banho, só depois, ele iria à cidade pagar contas e comprar, com os cabelos besuntados de Trim (4) . D. Maria juntou o dinheiro que a filha havia mandado, com o décimo terceiro de seu José, já descontados a lenha, a cota de luz e o aluguel, e recomendou:

– Paga a venda do Heitor, José, compra um pedaço de fumo forte na tabacaria do Coutinho e, no açougue Paulista, vê alguma carne pra amanhã. Traz um litrinho de vinho e um pacote de sagu, que a Nina está pedindo .

– Ah é? A Nina pediu?

– Pediu, tá com vontade, anda até aguada!

– Aproveita e traz um litro de leite, três ovos e cem gramas de queijo seco que eu vou fazer pudim, pode até trazer seis ovos, que vou fazer maionese também ...

Enquanto guardávamos a lenha, amontoando-a atrás da casa, fomos estremecidos por um intenso grito de dor: era o marido da vizinha, do outro lado da cerca, que debaixo da latada, uma parreira carregada de frutos roxos, acabara de dilacerar o coração de um leitão graúdo. Deixamos tudo e saímos correndo para ver o pobre animal: estava agonizante, os olhos tristes, lacrimosos sem entender o motivo da barbárie. Vendo o nosso desconcerto, alguém afirmou:

– Se tiver dó, ele não morre!

Então, para aliviar o sofrimento do já quase não-vivente, petrifiquei meus sentimentos e juntei-me aos outros, na esperança de ganhar alguma sobra. D. Rita, da casa de baixo, ganhou os miúdos; a Maria Pipoqueira, as vísceras para fazer sabão; nós, a bexiga ainda quente. Esvaziada ali mesmo, com o canudo duma folha de mamona a enchemos de ar e amarramos bem: E lá vai chute:

– Passa pra mim, Beto!

– Pega lá, Ado!

A diversão estava boa, mas só durou até a mãe perceber a nossa ausência e, com um grito inconfundível, nos pôs a terminar a tarefa: empilhar a madeira.

Aguardávamos a volta do pai. Era a esperança de que alguma surpresa pudesse estar escondida dentro do saco branco de algodão que ele trazia nas costas suadas. O calor daquele verão! Qual não foi a decepção, porém, quando entre as coisas encomendadas, a única novidade que veio foi, embrulhada num plástico embaçado, uma enorme cabeça de porco, barbuda. Que carranca! Seu Zé conseguira arrematar a última do açougue. Não teve dinheiro para mais. Explicou que a cabeça do porco bem preparada, já assada, era muito boa.

– Credo!

Mas Maria, nossa mãe, tinha reservado ao filho seminarista a incumbência de multiplicar as minguadas sobras orçamentárias e transformar o sonho dos três irmãos menores em realidade. E deu certo: horas mais tarde eles foram agraciados com brinquedinhos jamais vistos. Um trator para o maior, um fusca de polícia para o menor e, para o do meio, um caminhão com cavalos, carneiros e bois bem torneados e gordinhos. Bois de cupins, isto atiçou-lhe a imaginação: cupim assado é uma delicia! Após a euforia da partilha, eis que o menino que devia ser representante da justiça, com carro de polícia e tudo, houve por bem confiscar-me o caminhão e os animais, sob protestos veementes da parte lesada, mas tudo em vão! Desolado, sentado à porta, tentei compreender aquela arbitrariedade, aquele capricho prepotente e ainda mais os argumentos pacificadores da interventora que dizia:

- Calma, meu fi-li-o! Você já tem sete anos, já é um rapaz, sabe até ler, depois ele esquece e você pode brincar.

Tava tudo errado. Nada era justo. Finalmente contive os soluços, acalentado por um pirulito que me deram, uma pelota de calda de pudim endurecida espetada num palito de fósforo. O pudim mesmo assava no fogão à lenha, a banho-maria, e o vapor perfumava o ambiente, dando asas nostálgicas aos pensamentos... Taciturno, encostei a cabeça no batente retorcido da porta e observei... Frente à casa, debaixo dum limoeiro decrépito, havia um recanto de balaústras escuras. Entre cravinas de todas as cores, verdadeiro oásis em meio ao deserto de poeiras, o garotinho de olhos verdes, sem camisa, cabelos de ouro encaracolados, ficou horas a conduzir o rebanho que descarregou do caminhão confiscado. E já não são de plástico: – Olha só , sussurro pra mim mesmo. São bois e cavalos mansos que pastam, dóceis, de um lado ao outro. Os carneirinhos vão e vêm, tocados, em ordem, num pastoreio... Anoitece. Tudo vai parando... Não quero me mexer. Só quero compreender. Os pirilampos vêm e iluminam, como nunca... O poste alto da rua resplandeceu. Deu-se um presépio repentino... Noite de Paz, noite de Amor! Embevecido com o rito, o garotinho nem nota, e eu nem reparo nas pessoas que cruzam por ali, na esquina fatal, rumando a uma tal missa do galo a esperar não sei o quê...

Mas chegou o dia. D. Maria, a contragosto, tinha raspado aquilo e temperado a cabeça do porco que dormiu a noite inteira numa bacia. Pediu carona à Dona Laura, pra assá-lo no forno dela, junto aos cupins, quartos de leitoa, frangos e até um peru peitudo. Mas, ai! O final disto deu numa grande desventura! Mal as gorduras das carnes começaram a se diluir no forno, um cheiro nauseabundo se espalhou pelo ar, por entre os lares, sem respeitar nem casas nem taperas. Todos repugnaram. Não poucos comentaram. Das entranhas da cabeça vazou um óleo pútrido. Foi preciso tirá-la, às pressas, assar as carnes boas, que a vizinha, apurada, levou logo pra dentro e, só mais tarde, se pôde completar o trabalho da cabeça. Que angústia! O focinho do bicho se arrebitou, ainda mais, e veio à nossa mesa como para farejar; os olhos se abriram com as pestanas enceradas, pra ver tudo e a boca dele se arreganhou, mostrando os dentes, numa expressão horrível... O porco sarcástico ria...

- Era engraçado aquele cúmulo de desgraças e humilhações?!

Claro que ninguém pôde comer aquilo, apesar das motivações do pai, pois tínhamos o estômago revirado e o coração... E no rádio de mesa de meu pai, bem me lembro - como poderia esquecer? - vozes cantavam:

- “ Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel... Com certeza já morreu...! (5) ”

- Ah! Mas com certeza!

(1)MG, SP e PR: porção de terreno com 20 a 22 metros por 40 a 44
metros , cf. Novo Dicionário Eletrônico Aurélio.
(2)Marca registrada de pneumático.
(3) Outra marca registrada, mas de leite em pó.
(4) Marca registrada de brilhantina.
(5) “Boas Festas” de Assis Valente.

(*) Edu Vilasboas mora em Arapongas, Paraná. O conto "Eu Pensei que Todo Mundo..." foi escrito em 23 de novembro de 2006.

 

 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




 

 

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