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CRÔNICA

Tio Castro

(*) Nilson Monteiro


         

O sol batia de chapa no cinza de São Paulo naquele fevereiro de 1955. Com pouco mais de quatro anos, era um tiquinho de gente atrevida agarrado à mão direita de tio Castro, que, eu não sabia explicar os motivos, carregava um guarda-chuva na outra mão e uma paixão doentia por seu corpo e espírito rengos. Zelador da prefeitura paulistana, tio Castro fazia parte do mar de baianos que escorreu para São Paulo atrás de sustento. Naquele dia ensolarado, parecia ter motivos para rir por dentro e comemorar: íamos para o Pacaembu. Ele falava pelos cotovelos e me explicava cada detalhede seu amor alvi-negro, caminhando, coxo e lento, vítima que fora de atropelamento de um ônibus. Eu de um lado. E seu guarda-chuva de outro.

Ao Coríntians bastava o empate. Seria campeão de 1954, ano do IV Centenário da Cidade de São Paulo. Ao Palmeiras, seu adversário, havia não só a necessidade de vitória, como, para sagrar-se campeão dos quatro séculos paulistanos, uma outra derrota do Coríntians, desta vez para o São Paulo no domingo seguinte. O estádio tremeu quando, aos 10 minutos, Luisinho, o pequeno moleque atrevido, antecipara-se a Waldemar Fiume, uma lenda palestrina (fiquei sabendo seu nome anos depois), e enfiara a cabeça na bola, marcando o gol corintiano. Tio Castro não disfarçava o rubor dos olhos molhados, ao cantar, para todos os meus poros, o hino corintiano, os gritos de guerra, as orações para São Jorge. O Palmeiras empataria, aos 5 minutos do segundo tempo, através de Ney, para me fazer conhecer o drama, o sufoco, o temor e a ansiedade de uma nação. O presidente corintiano, Alfredo Ignácio Trindade, ficavanos vestiários, com um rosário nas mãos e o coração contando os segundos.

O jogo terminou empatado. Gilmar, goleiro, garantiu a rapadura. Mas, não só ele. Osvaldo Brandão, treinador, comandara os heróis que jogaram com o distintivo do timão sobre o coração e a gana suprema de derrotar o arquiinimigo. Coríntians campeão do Centenário! Fiquei só na arquibancada, molequinho frágil nos meus quatro anos, de olhos arregalados para a loucura. E, claro, berreiro pronto depois de meia ou uma hora sem a presença de tio Castro.

Ele se deixou arrastar pelo carnaval, enfiado em meio à onda humana, com todos seus santos e orixás felizes, negros e brancos, solidários e amarrados pelos panos das mesmas cores. Depois voltou, sorriso escancarado, mas de cabelos em pé. Havia me esquecido e ao seu guarda-chuva. Nunca me sentiria inútil por aquele dia de sol, em qualquer dia de minha vida. E contrairia de vez, com absoluta concordância de meu organismo, o vírus corintiano.

Aliás, o corintianismo é genético de minha família. É a única quase unanimidade familiar. Só o fator genético pode explicar esta mania, afeição, carinho. Para se ter uma idéia, somos em 26 primos e apenas um dos meus irmãos virou quinta-coluna, torce para o Santos. Pensei em tratar-se de insanidade passageira, fé na genialidade do crioulo, curtição que não passaria da década de 60, quando a ferocidade do Santos adiou toda e qualquer alegria dos corintianos. Necas. Mesmo depois do encerramento da era imbatível de Pelé, que nos legou um tabu de onze anos e 22 partidas sem vitória contra seu time, ele faz questão de ser o avesso de irmãos, sobrinhos, primos, tias, pais. É a democracia esportiva, fazer o quê?, que permite a existência inclusive de palmeirenses, sãopaulinos, flamenguistas e outros e outros...

Mas, fora este corpo estranho, toda a tribo padece e vibra com o Coríntians. Pode estar espalhada pelo Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, onde estiver. É apaixonada, magnetizada com a história escrita pelos pés de Jaú, Wladmir, Cláudio, Luizinho, Balthazar, Rivelino, Sócrates, Zé Elias, Zé Maria, Viola, Domingos da Guia, Mirandinha, Teleco, Ditão, Casagrande, Basílio, Servílio, Neco, Paulo Borges, Marcelinho, Flávio, Garrincha, entre tantos, centenas de outros. Ou pelas mãos de Gilmar, Tuffy, Ronaldo e Cabeção, entre outros (o risco da omissão é fatal, quando se recorre à memória da idolatria).

O que paira sobre a família, tenho certeza, é o fanatismo de tio Castro, que, lá na brancura do infinito, torce descaradamente para todos nós, amém: Co-rin-tia!


Clique aqui para ouvir "Curintiá", de Gilberto Gil

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(*) A crônica “Tio Castro” , foi publicada originalmente no livro “Pequena Casa de Jornal”, no ano de 2001. E Nilson Monteiro, jornalista em Curitiba, continua vibrando com o Curintia até hoje.

ÍNDICE DE TIRANDO DE LETRA

   
 
 
 
 
 
 
 
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