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A LÍNGUA DO FOTÓGRAFO E O OLHO DO POETA ________________________________________



....................................................................................................."No ar", de Áurea Cunha

Levitar
(*) Áurea Cunha

Aqui eu tinha doze anos, diz a menina.  Convencionamos após o primeiro ano de vida contar sempre em anos inteiros  a nossa idade, nunca acrescentamos os meses, dias, minutos e segundos que já vivemos . Se pensarmos um pouco, veremos que só há um preciso e determinado momento de nossa existência que fazemos doze anos redondo, depois já será doze anos e um pouco mais,  até inteirar treze.

A fotografia é sempre passado a partir do segundo que a sucede. Por isso dizem que o ato de fotografar tem a morte e a eternidade ao mesmo tempo. A morte daquele instante que jamais se repetirá e a eternidade com a possibilidade de rever aquela imagem no futuro.

Henri Cartier Bresson, único fotógrafo que ganhou o título de poeta da fotografia, falava do momento decisivo na imagem onde um segundo a mais ou a menos mudaria completamente a cena.  
Penso que na vida também é assim, tudo acontece em um momento .  Às vezes, ficamos anos tentando decidir algo e, na tensão de um instante, decidimos. É a gota de água que transborda o copo.  

Imagino que a fotografia nos fascina tanto por esse levitar, pela possibilidade do imponderável, de driblar o tempo e congelar um fragmento da vida para depois dizer eu era assim ou nesta foto eu tinha tantos anos.  Na fotografia, paramos o tempo que passa inexorável.
Ou, seríamos nós que passaríamos por ele?

 

(*) Áurea Cunha é fotojornalista em Foz do Iguaçu.


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