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A LÍNGUA DO FOTÓGRAFO E O OLHO DO POETA ________________________________________



......................................................................................................."Alegro", de Áurea Cunha

Salve, salve, Maria!
(*) Áurea Cunha

 

Quem nunca presenciou uma cena que gostaria de ter fotografado e não deu? Outro dia um colega descreveu uma cena rara e logo em seguida tascou um “pena que não deu tempo para fotografar”. Ah! O tempo, sempre caprichoso! Presumo que essas imagens que lamentamos não ter fotografado seriam  belas imagens.

Tem também aquelas fotos que gostaríamos de não ter feito. Como é o caso do fotógrafo sudanês Kevin Carter que ganhou o premio Pulitzer de fotografia com uma imagem de uma criança esquelética pela fome tendo um abutre ao fundo espreitando sua morte. A criança morreu, Kevin suicidou-se quatro meses depois. “Se” ele tivesse observado algo que é mais importante e vem antes de tudo, ele teria tido melhor sorte. Um doce para quem adivinhar o que vem antes de tudo. Começa com a letra V, assim mesmo em maiúsculo.  Quem acertou é só pensar no doce na próxima vez que for respirar.

Um dia eu presenciei uma cena que me fez pensar mais do que todas as cenas tristes e chocantes que assisti no front jornalístico. Uma menina entrou saltitante na casa onde eu morava para buscar um gatinho que tinha sido abandonado no quintal. Eram dois minúsculos gatos brancos, um era menor que o outro e Maria (nome verdadeiro dela) precisava escolher um deles. Ela escolheu o mais flaquito, a contra gosto dos adultos presentes que tentaram persuadi-la a pegar o maior. Mas a menina não fez caso e saiu feliz da vida com o animal agarrado em sua blusa.

A cena protagonizada por Maria é desconcertante em um modelo onde se quer levar vantagem em tudo, mas extremamente poética e inspiradora para quem teve a oportunidade de presenciá-la.  Digna de uma foto! Os teóricos da fotografia, principalmente os mais humanistas afirmam que devemos abrir um espaço poético nas imagens para que elas possam emocionar e provocar reflexão nos expectadores. Eu concordo, vi isso com meus olhos, não pude registrar, mas confirmo que vi.
Salve, salve Maria!

 

(*) Áurea Cunha é fotojornalista em Foz do Iguaçu.


Clique aqui para ler "Crônica Visual", de Áurea Cunha

Clique aqui para ler "Bola Murcha", de Áurea Cunha
Clique aqui para ler "Levitar", de Áurea Cunha

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"Todas as Cores do Mundo - Retratos do Multiculturalismo Iguaçuense"
e "Sem Legendas", de autoria de Áurea Cunha.

ÍNDICE DE TIRANDO DE LETRA

   
 
 
 
 
 
 
 
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