CRÔNICA
A felicidade não se enquadra
(*) Célia Musilli
Vou-me embora pra Pasárgada, como no poema de Manuel Bandeira, inesquecível peça de busca de um lugar chamado felicidade. Nada de muito grave me leva a querer ir pra Pasárgada, apenas o desejo de um lugar idílico, com menos horários, menos compromissos, menos receio de dar saltos no escuro, como uma bailarina que se arrisca pela beleza. Na verdade, todo mundo quer correr cada vez menos riscos, ainda que isto implique na busca de soluções menos criativas, trilhas menos amorosas, a impossibilidade de encontrar verdades que não se encontram prontas. A liberdade não é um produto, é um estado de espírito que propõe desafios, sem apólices de seguros.
Vivemos o tempo da incerteza. As pessoas falam da crise econômica, das ações que despencaram, da derrota de um modo de viver em que o "laissez- faire" era o emblema da liberdade. Nunca acreditei nisso. Coloco meu anseio de liberdade um pouco além das possibilidades de perdas e ganhos, das contas bancárias, dos pregões que tiram o sono de quem sonha com cifrões e mercados. Preocupo-me bem mais com as crises existenciais, com a crise da poesia que, de tão concreta, transformou-se em fórmula, teorema de sentimentos que se supõe imateriais, impossíveis de se medir em sua extensão de eterna graça. Num verdadeiro poema não se contam vogais nem consoantes. Antes, pregam-se o coração e os olhos nas palavras e seus significados, a poesia é um exercício incontável de arrebatamento.
Sem desafios, não há poesia que resista num tempo em que ninguém quer correr riscos, ninguém quer saltar no vácuo da beleza e da aventura. Até o amor, instância onde o desafio sempre nos incitou, virou território de segurança máxima.
Assisto a um programa de TV que tem como tema o casamento. Não o casamento enquanto união de duas pessoas apaixonadas. Mas o casamento enquanto produto no qual se investe uma grana preta para ser transformado em espetáculo. O show business chegou ao altar. Noivas e noivos fazem caras e bocas para dizer o "sim", encenam "o dia mais feliz de suas vidas", como se gravassem um especial de televisão. Madrinhas e padrinhos correspondem aos papéis que lhes cabem: coadjuvantes das cenas felizes. Assim, todos protagonizam a cerimônia, no espaço entre um take e outro, que depois viram registros em vídeo e imagens congeladas em álbuns de fotografias.
Moças eufóricas, noivas por um dia, vivem o deslumbramento de se transformarem em artistas de novela. Cinegrafistas as acompanham em seu Dia de Noiva, seguem-nas pelos salões de beleza onde cada cutícula arrancada é gravada em DVD, é proibido perder os ahs! e ohs! Assisto ao programa e pergunto intimamente aonde querem chegar estas noivas. Sonham com a felicidade das capas de revista? Das colunas sociais onde nenhum fio de cabelo escapa ao enquadramento da foto? E será que a vida dá pra ser "enquadrada" de forma assim tão perfeita?
Vivemos um estranho tempo de felicidade associada a momentos que se compram. A existência deve caber num álbum de fotografias, ninguém guarda para si os momentos felizes. Tudo é registrado por câmeras - nem que seja a dos celulares - para se ter mesmo a certeza de que se viveu um bom momento. É como se cada um precisasse documentar a felicidade para saber que ela existe.
Por sinal, esta mania de registrar tudo com os celulares parece a incapacidade de cada um fruir o momento pelo o que ele que tem de bom. Às vezes pergunto onde foram parar as "câmeras' da nossa retina, os flagrantes que se guardavam apenas na memória, como lembrança íntima dos nossos melhores dias. Tenho alguns momentos que não registrei com câmeras, até por isso estão naquele espaço em que se guardam gestos, palavras, olhares vivos, impossíveis de se reproduzir de forma mecânica. Não acredito na felicidade enquadrada. Até por isso, me bateu uma vontade enorme de ir embora pra Pasárgada. Aquela "realidade" idílica tem muito mais poesia do que a vida fake que pintaram por aí. Pasárgada é um território mítico que não se fotografa. Pasárgada é muito mais fugaz e, por isso mesmo, eterna.
(Texto dedicado a Lacques Jacan que observou como o uso obsessivo de câmeras e celulares demonstra que as pessoas não sabem mais guardar os bons momentos na memória.)
(*) Célia Musilli é jornalista em Londrina, Pr. Crônica publicada originalmente na Folha de Londrina e no blog Sensível Desafio. Conheça o blog da autora, clicando aqui.
ÍNDICE DE TIRANDO DE LETRA
|