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CONTO

Qual é a música?
(*) Fábia Tonin

 

Agora todo dia era assim, acordava com uma música na cabeça, vinda, não se sabe de onde. Não que ela quisesse ou escolhesse, a música tocava e pronto.

E aquele repertório? Santo Deus!

Era dentista, e não raro, se pegava acionando o motor, com o pé ao compasso de "Se te pego com outro te mato" do Sidney Magal. Em outra vez, surgia Perla com sua "Pequenina".

Aquilo não fazia o menor sentido, intrigava-a, sua preferência musical não era levada em conta, no entanto, de tão absorvida, se permitia cantarolar com Rosana enquanto polia uma restauração. Quando se dava conta, arriscava um olho para o paciente, rogando aos céus que ele não tivesse ouvido.

E quando acordava com ABBA?  Dancing Queen o dia todo martelando na cabeça...

Era só abrir os olhos e a música estava lá. A cada manhã, uma diferente, nunca se repetia, invadindo suas horas.

Embora se indagasse porque não acordava com um Vivaldi ou Bethoveen, que adorava,  se surpreendia tentando imaginar qual seria a música da vez.

Dia desses, já nem ligou para o ar divertido que fez o manobrista ao ouvi-la entoar sem cerimônia, a duvidosíssima "Moça" do Wando, enquanto pegava seu carro, que a propósito nem radio tinha. De onde vinha aquela música todos os dias? Influência de sons vindos da vizinhança certamente não seria, uma vez que morava em uma propriedade na zona rural e a casa mais próxima ficava bem distante. Um mistério...

E assim seguiam seus dias com a música na cabeça.

Até que numa manhã nada de sons, ela estranhou aquele silêncio interno. Onde teriam ido parar Bonnie Tyler, Bryan Adams, Márcio Greik? E o Trio Los Angeles que ainda nem tinha tido sua chance de aparecer?

Logo agora que já sentia capaz de bater até o campeão do relógio musical do Sílvio Santos?

Algo incomodada tomava seu café da manhã, quando percebe através da vidraça, seu jardineiro, o João Reis. Com uma expressão contrariada, coçava a cabeça por baixo do chapéu numa atitude típica de matuto que era. Conhecia-o bem, um sujeito  disposto que chegava para o trabalho logo cedo e adorava a lida com as flores. Sabendo que ele dificilmente se aborrecia, aproximou-se da janela a tempo  de ouvi-lo.

- "Diacho de pilha, cada veiz se acabando mais depressa. Num se faiz mais nada como antigamente.  Até a passarada se bandeou prá outros lados sem rádio essa manhã".

Entre atônita e divertida terminou seu café de um gole só e saiu para o trabalho.

Alcalinas ou recarregáveis?

Tratou logo de comprá-las, das mais duradouras, não podia mais viver sem aquele hit parade bizarro.


(*) Fábia Tonin é cirurgiã-dentista em São Paulo.

Leia um poema de Fábia Tonin, clicando aqui.

Leia um outro conto de Fábia Tonin, clicando aqui.

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