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A LÍNGUA DO FOTÓGRAFO E O OLHO DO POETA ________________________________________



............................................................................................."Pausa", de Áurea Cunha

Quantidade
(*) Áurea Cunha

 

Fim de ano! Tempo das apresentações escolares, formaturas, confraternizações e, inevitavelmente muitos clics fotográficos. É impressionante como a tecnologia digital democratizou a fotografia. Antigamente ser fotógrafo era só para meia dúzia de “iluminados” que tinham equipamento e conhecimento do métier.  Agora quem menos se espera tem uma camereta e é um fotógrafo em potencial.

As mães eram até bem pouco tempo as melhores clientes, compravam fotos dos seus pimpolhos até de olho fechado. Tinha até uma tática onde alguns fotógrafos ofereciam para tirar uma foto de graça das crianças. Os fotógrafos tiravam um monte de fotos e, é claro, as mães compravam todas. Pois elas agora viraram concorrentes. Elas mesmas fotografam seus anjos do jeito que bem querem. E eles agradecem, afinal, é bem melhor sorrir para a mamãe.

É, os tempos mudaram mesmo! Outro dia fui fotografar um evento e me assustei ao ver que quase metade dos presentes de uma platéia de duas mil pessoas também fotografava. Foi chocante e revelador ao mesmo tempo ver aquele batalhão de fotógrafos de ocasião! O fotógrafo profissional não reina mais absoluto.  

E, para nós, profissionais, só há desvantagem nisso . Além do reflexo no bolso, ainda os fotógrafos de ocasião atrapalham, ficando na nossa frente na hora do clic. A gente odeia isso. Mesmo que isso seja uma coisa que sempre fizemos com o público, obrigando-o a assistir muitas vezes as nossas cabeças, agora chiamos quando os de ocasião fazem o mesmo. Chamo isso de hora da revanche. É ruim, mas faz parte.
A tecnologia tem dessas coisas e num exercício de urbanidade deveríamos encontrar uma melhor e mais educada forma de conviver. Apesar de que não seja isso que se vê por aí e é mais comum do que se imagina volta e meia alguns se estapearem por espaço . 

Definitivamente, a pressa e o movimento frenético de nosso tempo não anda produzindo grande coisa na área fotográfica, apesar da oferta. Sobram tecnologia e mão de obra, faltam talento e inspiração. Ah, inspiração! Que palavra mais linda! Pena que não se pode comprar na padaria, senão eu ia pedir um montão para eu não precisar atrasar mais a entrega dessa crônica, que era para ser semanal, por falta de sua graça.

Isso tudo só vem reforçar que a boa fotografia continua sendo reflexo da qualidade do olho humano.  Em uma sociedade cada vez mais com os olhares em série, fotógrafos como Henry Cartier Bresson, Robert Capa, Diane Arbus, continuam sem similar.

Mas nem tudo está perdido. Sempre estará acontecendo algo invulgar capaz de inspirar. basta ter olhos para ver (essa é a parte difícil) como no caso do garotinho da foto, que durante um espetáculo de fim de ano de sua escolinha, parou para amarrar seus meigos sapatinhos e quando terminou de fazê-lo, o espetáculo já tinha terminado. No entanto, ele tinha feito um espetáculo à parte. Amarrou os sapatos com a calma e o capricho de um pequeno Buda, foi demais!  Só as crianças são capazes de algo assim!

O Bailarino e coreógrafo russo Nijinski, em uma passagem de sua carreira, ficou um longo tempo no palco até começar sua apresentação. Quando a platéia começou a demonstrar sinais de impaciência, ele disse que não era uma máquina, estava aguardando a inspiração.  Em seguida voou no palco, como ninguém fizera antes, levando a platéia ao delírio.

Salve, salve a Arte Verdadeira!

 

 

(*) Áurea Cunha é fotojornalista em Foz do Iguaçu.


Clique aqui para ler "Crônica Visual", de Áurea Cunha

Clique aqui para ler "Bola Murcha", de Áurea Cunha
Clique aqui para ler "Levitar", de Áurea Cunha
Clique aqui para ler "Salve, salve, Maria", de Áurea Cunha

Clique aqui para visitar as exposições virtuais
"Todas as Cores do Mundo - Retratos do Multiculturalismo Iguaçuense"
e "Sem Legendas", de autoria de Áurea Cunha.

ÍNDICE DE TIRANDO DE LETRA

   
 
 
 
 
 
 
 
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