OPINIÃO
Confissões de um rico
(*) José Nami Sobrinho
Senhoras... Senhores...
Majestades imperiais...
Amigos... Conhecidos e inimigos...
Estou vivo...
Sem dúvida, o tempo não parou nas curvas de nível: não fiquei roendo as unhas caminhando de um lado para o outro, diante das opiniões negativas e contrárias – fui à luta; trabalhei de sol a sol; tive progressos rápidos e admiráveis, vejam vocês, que minha variação temporal financeira, foi sempre positiva; posto que foi obediente a uma simples equação do primeiro grau com elementos cada vez mais astronômicos e, é claro, jamais fez curvas... Por isso, não precisei de nenhuma segunda chance para provar a todos, que sou mágico, que sou pé quente e também mão quente; afinal, também não precisei jogar nenhuma moedinha lá na fonte dos desejos com pedidos mundanos de sexo, dinheiro, poder e glória.
Houve um tempo em que me decidi a não ser nada na vida; foi aí que “o tudo” apareceu rápido: acostumado ao sucesso, até passei a questionar porque a natureza sempre foi generosa e sorriu dessa maneira para mim.
Fato é, que não sou mais um santo no meio deste vasto mundo cada vez mais envolto por essa nuvem negra composta de óxidos, monóxidos e dióxidos. Observador que sou, evidencio várias cabeças humanas que não produzem e não querem que outros colham os frutos que plantaram. Portanto, estão cheias de ódio arrogância, cumplicidade e rancor. Meu grande alívio é perceber que a força do amor é mais poderosa que tudo, embora não faça parte de nenhum credo religioso ou sociedade secreta. Creio que para expurgar o ar mefítico do dormitório sombrio de cada uma dessas cabeças, necessitar-se-ia da combustão de várias toneladas de enxofre....
Tais personalidades históricas e notáveis, se dissociam e entram em sintonia direta com certos seres flutuantes que não são imaginários. Estes, sim, interferem negativamente naqueles: entram e saem de algum crepe negro de sombras e vão empestando tudo, são “seres demoníacos que habitam e afetam o eixo terrestre”.
Sou meio rústico; não consigo exalar aquele cheirinho nefasto e artificial de santidade que determinadas inteligências emocionais fazem uso para anestesiar otários... Trago, sim, algum restinho de consciência de que estou em débito de gratidão com determinados amigos que insistiram em oferecer ajuda a esse “ex pobre pé de chinelo”, e que, como resposta inesperada, obtiveram um homem que muito se deu bem na vida – não naquele monstro... Aquele “lobo em pele de cordeiro”... Estudo alguma forma de poder um dia retribuir favores, oferecendo ajuda aos mais necessitados e merecedores...
Trago aqui dentro, a alegria daquele sujeitinho de muita sorte; provavelmente, nunca fui atingido por nenhuma descarga de maldição hereditária; tampouco, pisei em algum despacho... Pelo contrário, depois de um certo tempo, fui eu quem mais despachou em todos os sentidos... Minha situação financeira melhorou porque os juros do meu capital inicial foram simbólicos, eu soube multiplicar e trabalhar meus talentos. Não virei cativo das “vinhas da ira”... Não enriqueci agiota nenhum; sempre choveu na minha roça dentro de um sincronismo perfeito, e tudo foi harmônico; e tudo foi tranqüilo, assim é que, nesse embalo, sem que viajasse na maionese na espantosa velocidade da luz, já que nunca me perdi em nenhum labirinto, pude comprar sem pressões meu primeiro trator e, consequentemente, meus barcos e aviões, ingressando no “reino das commodities”. Negócios, agronegócios, indústrias do aço, todos correram atrás de mim. Meus guarda-livros sempre foram sinceros no ativo, no passivo, nas fusões empresariais, quando então, eu ia açambarcando tudo... enfim, nos projetos agendados nas reuniões importantes do conselho deliberativo de minhas empresas.
Nos momentos cruciais motivados por falta de liquidez ou escassez de crédito, fui eu quem mais obteve lucros e vantagens nas operações de capital e títulos de crédito, pois tenho um grande lastro para queimar... Se a desgraça de uns favorece a outros, fico triste, mas faço o possível para não usar das armas do mal, pois meu império é grande, muito grande... ninguém é perfeito, posso cometer alguns deslizes... algumas injustiças...
Trago um consolo. Observo de olhos bem abertos as provisões para salários e a aposentadoria digna dos empregados de minhas empresas – planos de carreira, férias, planos de saúde, etc.
Certos conhecidos meus, dotados de habilidades e visão empresarial acima da média, pararam no tempo, morreram na casca; permaneceram no meio do caminho porque não lhes deram as mesmas oportunidades que tive.
Hoje, dono de um vasto patrimônio líquido e um fundo de reserva compatível, saliento que não precisei de laranjas, paraíso fiscal, ou eventos mentirosos para lavar o dinheiro de minhas empresas. Tampouco, convencer os digníssimos e refinadíssimos otários de que ganhei centenas de vezes na loteria federal... Contribuo legalmente para o superávit da balança comercial deste país. Estou quite com o fisco, mesmo sabendo que tais excessos são legais, mas, imorais...
Poderei perfeitamente amparar minha velhice e meus protegidos quando estiver com o pé na cova. Contratarei uma dúzia de enfermeiras para que cuidem de minha esclerose múltipla, de meus problemas de fígado, ou de meu sistema nervoso central e periféricos abalados. Que sejam todas humoristas, rirei bastante, antes de partir, contarei muitas histórias... Muitos segredos... Fumarei do meu último “havana”... Beberei do meu último conhaque... Uma coisa é certa, não vou admitir que joguem minha carcaça velha de guerra, cheia de artrose em cima do leito dos enfermos como se fosse um tijolo quebrado. Nesse derradeiro momento, eu que sou um sujeito meio desalmado, ainda estarei gostando muito mais de mim que dos outros...
Sem dúvida, salvo disposição de lei em contrário, terei dinheiro para ser enterrado numa tumba luxuosa na área vip do cemitério central, porém, isto não será coisa de minha índole; afinal, os mistérios dos céus e dos infernos são coisas de Deus e não de alguns homens que por aí andam torcendo para que eu morra logo e vá direto para o inferno, sem que ao menos, possa prestar o exame de admissão ao purgatório....
O que pretendo mesmo, é pagar um segurança para que não violem meu caixão e enfiem uma estaca de madeira em meu peito. Meus inimigos certamente estarão pensando que ainda poderei estar por aí, que talvez eu seja um morto vivo; um vampiro melhorado que deu certo, ou quem sabe, um lobisomem... Sim, um lobisomem, porque fulano não é possível...
Senhoras... Senhores...
Majestades imperiais...
Amigos... Conhecidos e inimigos...
Fatos reais nas histórias do imaginário...
Dúvidas, verdades, risos e sombras...
Sei que em breve partirei...
Fumarei do meu último “havana”...
Beberei do meu último conhaque...
E logo virá o meu fim...
Alguém fechará minhas pálpebras...
E o mundo seguirá avante...
(*) José Nami Sobrinho é escritor e professor de tênis de campo, em Foz do Iguaçu-Pr.
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