COMENTÁRIO
Filosofando com Jack Sparrow
(*) Tati Lopatiuk
Eu adoro esses momentos. Gosto de acenar para eles enquanto passam.
– Jack Sparrow, in Piratas do Caribe: O Baú da Morte.
Olá, honrado leitor. Andam dizendo por aí que a vida é (está?) uma porcaria, que nada vai dar certo, que é melhor fugir para o México enquanto ainda podemos. Em 90% do tempo, sou obrigada a concordar. E, na impossibilidade de fugir, me esconder entre os lençóis macios da minha sempre compreensiva cama. Minha mãe sempre falou, lugar de chorar é na cama, que é lugar quente. Mas existem aqueles raros 10% restantes do tempo em que a vida parece nos sorrir, não existem?
Existem sim. Jack Sparrow sabe disso, cara esperto. Sim, cara bobo também. Mas esperto. E esses caras são os melhores, eu juro. Esses caras bobos/espertos e esses momentos, os dos 10%. Domingo tive um desses. Um desses momentos, eu digo. E o ano começou bonito, like a sunshine day. Foi assim.
Estava no McDonald's, bem cedinho, sozinha. Bebendo um borbulhante e açucarado capuccino e lendo bula de remédio. Eu tinha feito antes uma bela de uma caminhada involuntária pela feirinha da JK e meia hora antes disso, tinha ganho um último beijo. E então, entre um gole de capuccino e a leitura atenta de mais uma reação adversa improvável e cômica, começou a tocar Secret Smile, da Semisonic. Puxa vida.
Essa música significa tanto prá mim. Não que tenha sido trilha sonora de algum momento especial, nem que me lembre alguém. Mas é que foi uma música que veio numa coletânea chifrim que comprei há muitos anos atrás, naquele tempo em que comprar cd era a coisa mais luxuosa do mundo. Quem tinha mais de cinco era milionário. Nem lembro que cd era, mas o fato é que tinha essa música e foi a que eu mais gostei. Escutava ad infinitum, escrevia a letra nas folhas dos meus cadernos da 8ª série. Não tem aquela coisa de se apaixonar por uma música? Então. Mas depois
que passou a obsessão e achei outras paixões, nunca mais escutei a música. Até por que Semisonic não é uma banda das mais famosas dunevérso, né? Eu mesmo não conheço mais nada dela a não ser essa música e o cd em questão se perdeu por aí.
E então, mileanos depois, lá estava eu no Mcdonald's, numa manhã tão atípica quanto bonita, com uma felicidade que ía aos poucos se tornando maior e certa, talvez pela certeza do carnaval, talvez pela confortante bula do remédio. E toca aquela música, a minha música. Quais são as probabilidades disso acontecer? O Mc vazio, vazio. E eu gosto tanto de lugares vazios! Os primeiros acordes de Secret Smile tomaram de assalto o segundo andar da lanchonete, preenchendo o ambiente por completo e eu não pude deixar de sorrir. A minha música, caraleo. A minha vida, o meu momento. É certo que quando a gente tá triste, tudo colabora. Mas quando a gente decide ficar feliz, tudo colabora também. Repare. E sentada vendo os carros passarem, lembrando da noite anterior e pensando em como é que eu ía explicar lá em casa ter saido tão cedo em pleno domingo, eu quis que aquele momento durasse mais do que os quatro minutos e pouco da música. Nessas eu queria ser igual o Hiro Nakamura, do Heroes: parar o tempo, fazer ele voltar, me teletransportar através dele.
Mas é claro que não podia. Fiquei ali, cantarolando baixinho. Quis te mandar uma mensagem, mas nem isso tive coragem. Terminei o capuccino, finalmente tomei o remédio, levantei e fui embora.
Uma manhã tão linda, mas tão linda lá fora que eu fiquei quase decepcionada quando o meu ônibus chegou, assim que atravessei a rua. Eu entrei no ônibus e tudo voltou ao normal. E vieram as lembranças das contas a pagar, das férias que acabavam naquele dia mesmo, da eminência da primeira segunda-feira útil do ano, das minhas
incertezas default e da tristeza pela saudade que já estava por vir. Mas entenda, houve aquele momento. Aquele momento feliz passou por mim, eu sorri e acenei prá ele. Jack Sparrow me entenderia.
(*) Tati Lopatiuk é contabilista em Foz do Iguaçu, Pr..
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