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COMENTÁRIO


Salvador Dalí,
o mito do surrealismo

(*) Almandrade

Frenético, divertido, exibicionista, uma vida marcada de excentricidades e escândalos, Salvador Dalí não é só o mais conhecido artista do movimento surrealista, ao lado de Pablo Picasso faz parte da mitologia do século XX. Fez de sua vida um sonho ininterrupto, a estética existencial do surrealismo. Com declarações provocativas e exageradas, como esta: "Fui influenciado, sobretudo pela espiritualidade de Da Vinci e a objetividade de Vermeer. Comparado com estes mestres do Renascimento, sou um péssimo pintor. Mas se me comparar com os meus contemporâneos, sou o melhor. Não que eu seja bom, mas porque os outros são piores. É só isso." Usou e abusou do artifício de explorar a marca Dalí como marketing.

Influenciado pelo Cubismo de Juan Gris, Dalí descobriu o Surrealismo depois que conheceu a pintura metafísica de Giogio de Chirico, em 1928. Foi apresentado aos integrantes do movimento por outro pintor espanhol Joan Miró. Imediatamente aderiu ao Surrealismo com o seu amigo e cineasta Luis Buñuel, com quem escreveu o roteiro de Um Chien Andaluz (Um Cão Andaluz), um curta de 17 minutos que ainda hoje causa arrepios.

A estética surrealista é filha bastarda do Cubismo e a irmã mais ingênua do Dadaísmo. Os seus integrantes foram influenciadospela incerteza política do pós-guerra (primeira guerra mundial) e psicanálise do Dr. Freud. Uma arte que questionava a neutralidade da cultura burguesa européia e a frágil condição humana diante do mundo moderno dominado pela racionalidade tecnológica. A verdadeira revolução surrealista estava na subversão pelo desejo. O manifesto, que norteava os caminhos do movimento, surgiu em 1924, assinado pelo seu líder o escritor e médico psiquiatra Andre Breton.

A partir de uma leitura literal de Freud, Breton e seus seguidores acreditavam que a verdade do individuo estava no sonho, a porta de acesso ao inconsciente e ao reservatório de pensamentos, desejos e experiências recalcados do consciente. Mas se o sonho é uma linguagem essa suposta verdade foi filtrada nas tramas de uma gramática. A pintura surrealista da maioria de seus pintores é mais uma ilustração do que eles entendiam por inconscientes e menos uma indagação da representação onírica e da função simbólica da imagem. O crítico
carioca Wilson Coutinho chegou a afirmar: "Muito da obra de Salvador Dali, por exemplo, se assemelha a uma catedral rococó do inconsciente."

Fetiches sexuais, arquiteturas provocantes, imagens bizarras, paisagens oníricas, alegorias metafísicas, distorções e justaposições de imagens conhecidas, elaborados com uma técnica apurada, sem dispensar o aprendizado de mestres da Renascença, fazem o cenário da pintura de Dalí. A representação ou encenação de um inconsciente imaginado pelo artista, a sublimação do erótico e o conteúdo poético dos sonhos. O desejo é o tema ou motivo da produção da obra de arte. O olhar do artista, como pregava Breton, vaga atrás de terras virgens não mais encontrada no real e sim no fundo do inconsciente. Realidades contraditórias que se confrontam. O real e o imaginário.

"Persistência da Memória" uma das pinturas mais conhecida de Dalí, concluída em 1931, é possível se fazer uma interpretação da angústia do homem diante do tempo, o espaço e a memória, a eternidade que não resiste ao calor e se derrete. Na tela vemos relógios moles, dependurados e escorrendo, contrariando uma certa ordem do olhar. A fantasia, os estados de tristeza e desespero exerceram alguma determinação na escolha dos temas ou motivos pelos surrealistas. Dalí distorce a realidade. Os elementos delirantes se acomodam numa linguagem pictórica realista e simbolista.

Na tela "O Sono", de 1937, Dalí criou uma encenação fantástica do sono. No centro, em primeiro plano, uma cabeça que dorme e sonha, toda escorada, no fundo uma paisagem que remete a outro mundo desconhecido. O homem e o inconsciente. Um equilíbrio delicado separa o sono da vigília. O estado de sono é frágil, basta tirar uma escora e a realidade vem abaixo, o fim do sonho, que pode ser também o fim da rebeldia, do gozo, da fantasia. Tudo é tão precário. A associação de elementos díspares, de objetos tirados dos seus contextos convencionais, é uma forma de obter significações inesperadas. Recurso bastante utilizado no desenvolvimento das pesquisas estéticas dos surrealistas fundamentadas nas descobertas freudianas.

(*) Almandrade é poeta, artista plástico e arquiteto na Bahia.

ÍNDICE DE TIRANDO DE LETRA

   
 
 
 
 
 
 
 
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