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CONTO

Pirkel
(*) Beto Maciel

(**)Es war doch so schön¹ - Es sei wie es wolle²

O relógio passa da meia noite e eu não consigo dormir. Amanhã é dia normal, trabalho, e eu estou, ultimamente, alucinado, perturbado, como sempre, tentando fazer de tudo, abraçar o mundo. Acordo cedo. Ligo a TV nos jornais e sigo meu ritmo frenético, banho rápido, dentes escovados, carro, trânsito, café na mesa do trabalho, torradas, bato compulsivamente o teclado do computador, disparo telefones, conversas rápidas no MSN, envio de emails, postagem de notas, matérias, correrias nos bastidores do poder e um saco para agüentar a mesquinhez de cada ator barato que encontro pela frente. Que vida besta que eu tenho.

- Você não vai dormir, diz Andrea.

- Não. Algo prendeu meu sono. Preciso arrancar isso de mim. É o Cássio. Não consigo parar pensar desde que soube da sua morte. Fizemos coisas juntos, muitas coisas. Onde estão todas as nossas anotações, rascunhos, desenhos, textos, projetos, invencionices? Fui perdendo nos últimos 20 anos. Cássio não esperou tanto. Se matou há três anos, revelou um amigo. E só soubemos que Cássio se foi, não quis mais, porque a sua turma de arquitetura queria saber de seu paradeiro. Que vida besta que levamos.

Meio piegas, angustiado, emocionado, poderia até cantar “revanche”, “the end”, “epitáfio”, “london calling”, “psyco killer”, “nem sempre pode ser deus”, “tempo perdido”, “pegador maldito”, “my way”, mas ao Cássio não vale. Éramos diferentes. Se não éramos, queríamos ser, queríamos atitude com algo a mais do que simplesmente “poser”. Nos anos 80 não suportávamos ouvir luau estudantil cantando “cio da terra”, “por onde for quero ser seu par” e por aí vai. Resolvemos ser pior que isso. Achincalhamos.

O nosso desajuste se produziu em literatura, poesia, histórias em quadrinhos, manifestos, revistas, roteiros nunca gravados e tantas outras coisas. Tínhamos uma morbidez entalada, seria gótico hoje, uma vocação para sátira, brincávamos de deus, tripudiamos a morte. Cássio seguiu sua sina - 17 anos depois. Eu, covarde, tento escapar dela.

Num dos fanzines, fizemos uma HQ, Flores do Mal, misturamos poesia de Baudelaire, Sergei Iesenin, Maiakovski, José Gil, Andrea Paiva, Glauco Mattoso, Marcelo Nova, Margherith Youcemar com desenhos de Moebius, Angeli, Guido Crepax, Tamburini, Liberatore, Pazienza, Marcatti, Pavanelli, Milo Manara, Daniel Torres, Lorenzo Mattotti, André Toral e Mosquil.

Partimos de uma estrofe de Baudelaire: E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso”. Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

De um verso de Iessenin: Se morrer nesta vida não é novo. Tampouco há novidade em estar vivo. O poeta russo, diz a lenda, escreveu esse verso com o sangue dos próprios punhos e se esvaiu. E de uma máxima de Maiakovski: prefiro morrer de vodka do que de tédio. Esse russo também não agüentou a pressão e escafedeu-se.

A nossa HQ era juvenílica – uma história de uma bad trip, mas comovia. Assim como quando Andrea Paiva, de São Paulo, me escreveu: não sei do futuro, nem do instante mais próximo. Só sei do medo de olhar pro céu e ver todos aqueles óvnis fantasiados de aviões, estrelas e cometas que nunca aparecem. A qual eu respondi: eu estou só, de passagem, a margem de um grito no escuro. E ainda: no precipício da vida, um suicida se atira, e voa.

Na HQ, Cássio arrematou com a salada de desenhos outros versos e máximas: a overdose é um suicídio premeditado (de José Gil). E vagos, claros, desejos, brandos sentimentos, qual lado o sol acende? 1 watt ilumina o mundo. E por fim: um homem não participa necessariamente das idéias do seu século (Margherith Youcemar em Memórias de Adriano).

Como se vê, éramos ingênuos, bobos até, se olharmos agora tudo no que se transformou a literatura, a indústria cultural, música, cinema, HQ’s. E Cássio, um dândi, um lorde inglês, se desgarrou mesmo, não quis saber mais, se desencontramos lá pelos anos 90, conversamos em 2003 por telefone. Ele estava em Guarapuava.

- fazendo o que nesta cidade, perguntei?

- Não sei, ainda não descobri, respondeu

Cassio vazou, abriu, partiu para não sei onde. E o que não entendo é por que desse maldito nó na garganta persiste enquanto escrevo? Por que das lagrimas que teimam embaçar as lentes dos óculos e dessa sensação de não sei o que? Só sei que é um misto de emputecimento, comiseração e desespero. Por que os amigos vão se eu já não posso contá-los nos dedos de uma mão?

Amanhã continuo minha rotina. Vou acordar os meus filhos. Brigar com aquele que não toma banho, com outro que não escova os dentes, com a minha filha que não sai da frente da TV e com os três que passam horas e horas no computador na madrugada. Vou de carona ao trabalho e vou agüentar o chefe e seus agregados - filho, secretária, amante, ex-mulheres, estafetas e puxa-sacos. Simples mortais nesta vida besta.

Tudo que fiz com Cássio está num baú, numa pasta empoeirada, numa prateleira, perdidos, escondidos, jogados, queimados inadvertidamente, um hata – agora é moda de celebridades – virou pano de chão. O que uma empregada faria com um pano velho guardado num canto do guarda-roupa?

Cássio se foi e me deixou só. Agora sou só eu que carrega os fantasmas.

(**)Foi um prazer (1) Não importa o quê (2) – editorial do Mova-se Caralho/julho/1987 – de uma livre tradução, e bota livre nisso, de Fausto, de Goethe.

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Em tempo:
o editorial da primeira edição do Mova-se Caralho – abril/1987


Páginas de "Flores do Mal", quadrinhos produzidos por Cássio Pirkel e editados no Fanzine "Mova-se"


fazdefoz


"
Irmãos. Chegamos. Aliás, estamos aqui há um bom tempo. Resolvemos ser originais. A originalidade é apenas uma imitação melhor que as outras. Este boletim sai hoje. O próximo sai amanhã. Esperem.
Sabemos que produzir algo nessa cidade é uma merda. O cineclube é para isso mesmo. A cidade vai continuar como está ou feder mais ainda.

É o que esperamos.

Vamos invadir todos os espaços. Levaremos cinema, cultura e ejaculação precoce a todos. Não vai sobrar um. Bares, boates, bairros, escolas, favelas, igrejas e cadeias. Todos, sem distinção, vão entrar na dança. Podem levar o papagaio, a farofa e o baseadinho.

Esta cidade precisa ter acesso ao cinema de arte ou independente. Vamos criar um pólo cultural alternativo, reunindo pessoas e interessados afins para aprender a fazer cinema e talvez filmes.

Vamos entrar na briga pela tal casa da cultura. É uma fudeção uma cidade como esta não ter um local onde os artistas toquem punhetas e troquem palavrões.

Meus velhos estão de saco cheio de tanta reunião na hora da novela. Precisamos de espaço. A arte está para a cultura como a cultura está pela arte e vice-versa. É tudo abobrinha e estamos cansados disso.

Vamos trazer os melhores filmes já rodados no Brasil e outros que vocês nunca viram. Abaixo a pornografia. Não que sejamos contra. É que só tocar bronha também enche o saco, ou melhor, esvazia. Nisso nós temos experiência.

Promoveremos encontros, festivais, cursos, palestras, orgias e bacanais - tudo ligado ao cinema, claro. Vamos derrubar os enlatados americanos e as novelas da Globo. Menos a das oito que a minha mãe adora.

Todos os interessados em participar desse cineclube são bem vindo a bordo. Damos preferência às mulheres e às bichas. As bichas são para os tempos de vacas magras.

A tchurma da pastoral da juventude já está participando. Não discriminamos ninguém. Traçamos todos. Procurem os redatores deste boletim. Telefonem ou deixem recado. Sem baixaria no telefone, minha mãe é brava. Esperamos todos e aguardem.
O que será de Foz sem nós?"

 

(*) Beto Maciel é jornalista em Curitiba. Nos anos 80 editou, junto com Cássio Pirkel, o fanzine "Mova-se Caralho".

 

Leia outro conto de Beto Maciel

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