CRÔNICA
Que a Fênix renasça das cinzas
(*) Célia Musilli
Camille Paglia, a norte-americana que frequenta todas as listas da inteligência contemporânea, declarou à Veja que anda fissurada em Daniela Mercury. Caiu de amores depois que viu a baiana em DVD e destronou Madonna, a quem já considerou o ícone máximo do pop.
Camille deve saber o que está falando. É uma expert em feminismo, arte e cultura. Ainda assim, acho estranho que se sinta fascinada por La Mercury. Não deve saber que no Brasil há dezenas de Danielas e Ivetes, reproduções em série do reino do axé, cujo pior exemplar atende pelo nome de Cláudia Leitte. São estas cantoras que comandam a festa de Momo, aquela mesma que agora começa e termina com a multidão gritando ôôô, uma saudação tribal pelo qual nutro alguma simpatia no primeiro dia de folia. Depois não aguento nem mais ouvir, com seu sentido esvaziado pelo movimento das mãozinhas no ar que transforma os blocos em legiões abobalhadas e repetitivas.
Fico pensando por que as pessoas acham tão divertido gritar ôôô e arrotar cerveja, enquanto pulam emboladas, sujeitas a cotoveladas e empurrões. Será que meu sentido de coletivo é que anda esvaziado? Ou o Carnaval é que caiu na vala da caretice em comum?
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(*) Célia Musilli é jornalista em Londrina, Paraná. O texto acima foi publicado originalmente no blog Sensível Desafio, do qual Célia é a editora.
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