CRÍTICA
As águas profundas
de Beatriz Nocera
(*) Maria José Justino
Quando vi os trabalhos de Nocera pela primeira vez, tive a impressão de estar diante de um trabalho profundamente feminino. Fez-me pensar em Freud, quando se referia ao mundo da mulher como o continente escuro da feminilidade. Embora haja toda uma carga negativa nessa afirmativa – que provocou estudiosos a ajustarem a mulher em estereótipos como temperamental, mística, irracional, histérica –, é possível explorar a reflexão freudiana em outra direção: posso pensar a mulher como uma região ainda do inescrutável, do que ainda está para ser descoberto, a ser inventado. Um convite a entrar em um mundo aberto.
Esse universo escuro ilumina-se quando estou diante das obras de Nocera sendo impossível escapar à pergunta: existe uma arte feminina? É possível falar de um olhar especificamente feminino? Masculino e feminino são mundos antagônicos? Esse antagonismo não estaria na ordem de uma construção social?
Do mesmo modo que o espaço privado é visto como reduto da mulher, em oposição ao público, lugar do homem, todas essas oposições resultam da sociabilidade. As diferenças de sexo não são de essência. O gênero possui uma historicidade, é uma categoria histórica: o social está imbricado ao biológico.
Desse modo, não acredito em feminilidade no sentido absoluto, como essência coagulada. As fronteiras entre masculino e feminino são fluidas. Isso não significa ignorar uma feminilidade no trabalho de Nocera. A arte dessa artista traz tudo aquilo que se costuma dizer pertencente ao universo feminino: detalhismo, afetividade e intuição, por oposição à racionalidade, geralmente associada ao masculino.
É uma artista fortemente intuitiva, o que não significa irracional, pois "o espírito não intui senão fazendo, formando, expressando" (Croce:105). A intuição exige um conteúdo, um "atrás", uma memória, do mesmo modo que reclama uma prospecção. Enquanto o pensamento abstrato supõe idealidade e universalidade, a intuição se funda na experiência, o que não dispensa a racionalidade. É um conhecimento que sobrevoa a razão, que reclama todas as antenas do corpo, que exige uma percepção profunda, que parte das coisas mesmas e as ultrapassa, fundando o novo, criando novos sentidos. A intuição é uma forma mais profunda de ver e de perceber, na qual o olho já é espírito.
A fatura de Nocera nasce das ocupações de nossas avós, no limiar da casa, da vida familiar, dos detalhes, dos esquecidos na memória. Fala da intimidade. Nocera está longe das bacantes e das amazonas, da valentia das mulheres guerreiras. Sua obra está voltada a uma outra sorte de força: a delicadeza. É uma obra assentada na ternura, no lírico, na doçura, no telúrico. São telas delicadas, sutis, nas quais não há excessos, ao contrário, há formas e cores casadas em harmonia. O mundo da artista é carregado de elementos da cultura doméstica: toalhinhas de renda, laços de fitas, linha de costura, xícaras, garfos, compoteiras, taças, maçãs, bonecas, borboletas, todas essas tralhas vertidas em traços e cores que resultam em ícones.
Esses objetos-pinturas formam poemas em cores. São coisas do passado ditas em sintaxe contemporânea. Telúrica, nostálgica, diáfana, construtiva, Nocera obriga o pincel a dialogar com o bordado e a colagem. A escolha não poderia ser outra senão aliar ao desenho do bordado a técnica da tinta a óleo.
Diferentemente da acrílica (presa à textura plástica), o óleo guarda uma nobreza, exige a maturação do tempo, presta-se ao meditativo, tempo das resoluções sem urgência. Do mesmo modo que a linha desenhada pelo bordado. O trabalho de Nocera nasce nesse tempo/templo meditativo, gestado na espiral do silêncio. Monástico. Trabalha com todos os sentidos – olho, coração e as pontas dos dedos. A artista não está interessada no trabalho doméstico repetitivo, volta-se antes à casa enquanto lugar dos devaneios, concentração das vivências, aconchego, lugar de querer ficar, de demorar-se, de mergulhar em águas profundas.
Nocera opera um deslocamento do dentro para o fora, do detalhe para as coisas grandes, do privado para o público. É todo um universo que se abre, generoso, irradiador de beleza e sentido. Olhar suas singelas telas alarga nossa imaginação à imensidão do possível. É olhar para o conhecido, o familiar, e espantar-se, afundando nos subterrâneos dos pequenos e vastos instantes doces de nossa memória, ao mesmo tempo em que nos abrimos a regiões ainda não habitadas.
CROCE, Benedetto. Estética. Buenos Aires: Ediciones Nueva Visión, 1969.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. In Obras Completas, Rio de Janeiro : Imago Editora, 1952.
(*) Maria José Justino é doutora em Estética e Ciências das Artes pela Universidade de Paris. Coordenou e implantou o Museu de Arte do Paraná - Palácio São Francisco, Curitiba (1987) e o MusA - Museu de Arte da UFPR (abril/2002). Atualmente é professora da História da Arte na EMBAP, dedica-se à crítica de arte e pertence à ABCA (Associação Brasileira de Críticos de Arte).
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