CONTO
Sem pé nem cabeça
(Uma noite na cozinha
ou “Lição Prática de Como Vencer o Medo”)
(*) Célia Musilli
Ela disse: “Tenho medo da meia-noite”.
E cravou os olhos nos ponteiros marcando 23h45. Ele relevou o momento mas também viu os fantasmas, chegando e sentando-se à mesa para a leitura de Wilde.
‘Histórias de Fadas’ começava a ser folheado. O Rouxinol e a Rosa era o conto mais triste, sobre o amor abatido em pleno voo. Mas o que assombrava ali era algo mais subjetivo que o amor. Era o vazio das horas, o escorrer dos minutos celebrando o novo dia que, antes de ser luz, era sombra, uma grande sombra, que nos faz temer o futuro. E o futuro galopa no Tempo.
O amigo ignorou os fantasmas, preferiu fazer suco, misturando a polpa da fruta à água em partes iguais. Feita a mistura, deu um copo para que ela bebesse como o néctar do esquecimento....Então os ponteiros giraram, outros assuntos vieram, os fantasmas desapareceram porque só queriam mesmo ouvir a história, aquela em que o pássaro se mata, colorindo a rosa branca com seu sangue para consagrar um amor.
Ela pensou que o presente carece de sacrifício, tudo é muito prático, com amores se sucedendo nos bares e nos metrôs. E de gole em gole, de linha em linha, os visitantes noturnos foram se acalmando com tanta praticidade, sem nenhuma morte, nenhum assombro.
Sem ninguém perceber, o relógio chegou à 0h15 e ela despertou do medo, fechou o livro, despediu-se do amigo e foi lá fora ter com a hora em que a noite rompe o dia, sem rosas nem rouxinóis. Compreendeu que, no fundo, os fantasmas não toleram coisas prosaicas, alguém fazendo suco, jogando bola, andando de bicicleta, fritando bifes...A meia-noite exige ações misteriosas e fazer limonada é tiro e queda como exorcismo.
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(*) Célia Musilli é jornalista em Londrina, Paraná.
Edita o blog sensível desafio, onde foi publicado originalmente o texto "Sem pé nem cabeça"
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