Abençoada seja aquela caçamba largada ali no fim da Rua de Janeiro. Bendita seja pelo simples fato de não me deixa esquecer o lado perverso de Foz do Iguaçu. É um contêiner desses usados para recolher sobras de material de construção, mas acabou por ganhar outra utilidade dos moradores: armazenar lixo da Vila do Sossego, no bairro Maracanã.
Todo tipo de lixo, diga-se de passagem. Desde material reciclável, como papel, vidro e plástico, aos restos orgânicos vegetal, animal e humano. A sociedade iguaçuense não perdoa. Ficou abaixo da linha da dignidade, vai para o grande tonel, para o deleite de alguns e perplexidade da maioria (ou seria o inverso?). Julgamento sem direito a recurso.
É fácil assistir a sentença. Dia sim, dia não, o escanifrado Josué está no alto da pilha de lixo, debaixo de um calor de 40 graus, revirando porcarias em busca de algo... Tempos atrás, esmolava nos semáforos da Avenida Paraná para abastecer o vício pelo crack. A droga consumiu o seu corpo a ponto de seus pares o expulsaram das ruas. Sua fisionomia amedronta os motoristas. Restou-lhe a imundice.
Mãe, Ivonete Rodrigues de Almeida, 30, a Maninha também sentiu na pele o julgamento coletivo, em julho passado. Conhecida por revender drogas, foi assassinada a tiros. O corpo, parcialmente queimado, acabou na caçamba, em meio as porcarias. O cadáver foi recolhido pelo IML, numa ação muito mais humilhante para quem ficou do que para a própria vítima, que a esta altura deve descansar em paz, apesar dos erros cometidos em vida.
Os mais realistas devem pensar: essas cenas são comuns nos lixões ou aterros sanitários. De fato, cadáveres, miseráveis em busca de sobrevivência disputando restos com urubus são normais em lugares onde jogamos aquilo que dispensamos das nossas vidas. O incomum é ter um lixão particular, na frente da sua casa, parado ali, te incomodando.
Comovido pelo clima de solidariedade, vou compartilhar esse sentimento e fazer uma sugestão aos vereadores. Indiquem à concessionária responsável pelo lixo da cidade a colocação de um contêiner na esquina da Rua Marechal Deodoro com a Rua Edmundo de Barros e outro na Avenida Iguaçu, perto da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Salve a caçamba.
(*) Alexandre Palmar é jornalista em Foz do Iguaçu.