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CRÔNICA
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Solitude

(*) Célia Musilli

 

Quando me sinto sozinha não é a solidão da navalha que faz a autópsia revelando as dobras, tecidos onde se instalam emoções baratas, pulsações que correm, correm, até que escorrem, quando há uma incisão no pensamento. O pensamento dilata veias nas minhas têmporas, mas não é desta solidão que falo, de sentir o próprio sangue como um relógio que diz tic tac, até que um dia, tac..e o tempo pára.

Quando me sinto sozinha, não é a solidão da morte, de Tanatos e sua face escura. O que sinto é a solidão da festa, quando pego meu cavalo alado e subo para ver a multidão de cima. E a multidão se esfrega mostrando a genitália, trocando uns goles, como quem se beija....Carnaval do prazer ambíguo e real do corpo a corpo, boca a boca, língua enrijecida, vontade flácida, movimento da galera num barco de euforias, madrugada estelar na maior cidade do planeta...

A solidão de que falo não tem a dor do apartheid nem do isolamento. É algo assim como sentir tédio no meio da torcida e ir pra casa como um desenganado social ou um mamute que se perdeu do bando, reeditando a era do gelo.

A solidão sideral não se alimenta de fogos nem se ilude com goles, o tilintar dos cubos boiando no uísque, a cerveja em copos que se abrem como tulipas, o champanhe que borbulha como uma fonte erótica de Roma...

Acho tudo bonito, cinematográfico. Mas a solidão de que falo é um monólogo para poucos. Um tête-à-tête de sussurros que despertam em mim um animal intenso.

A solidão que sinto não me faz querer companhia, não destas que se oferecem nos balcões sebentos ou no banquete em que todos se comem com talher de prata. Nada disso tem a ver comigo e se o faço é por pura concessão, ironizando os protocolos.

A solidão que sinto tem a humanidade que vinga como uma flor à luz do dia, com pétalas e raízes aquecidas. Brotando, crescendo e morrendo como um girassol de floração única, suspenso em seus próprios atos. É a solidão do ciclo de ser mais uma em campo, deitando sementes, como quem deita palavras, polinizando vazios como um exercício de BELEZA!...

 

(*) Célia Musilli é jornalista e escritora em Londrina, Pr. Edita o blog Sensível Desafio

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