Geralmente associamos a criatividade ao universo artístico. Porém, criar não é um recurso necessário somente à arte e aos artistas, ela é uma necessidade cotidiana. Encarada assim, a criatividade parece algo muito mais natural do que pensam alguns, que a relacionam com genialidade e padrões menos normais de comportamento. Apesar de se encontrar poucas referências, apresento alguns pontos de vista diferentes sobre o assunto.
A artista Fayga Ostrowwer considera criatividade como sendo o resultado da realização das potencialidades de cada um; a natureza criativa elaborada no ambiente cultural, que determina também as formas. Ela diz que: “Toda forma é forma de comunicação ao mesmo tempo que forma de realização". É através das formas que materializamos e expressamos a cultura, o conhecimento e comportamento que envolve os indivíduos.
As formas para expressar graficamente idéias e posicionamentos são estabelecidas, em geral, por áreas como arte, design, arquitetura. E para criar é necessário aproveitar todos os conhecimentos, organizando-os de forma a chegar, por meio deles, a melhor solução para comunicar o que se pretende. E não podemos considerar somente o que é aprendido nas classes de aula. Há um conhecimento muito rico que se forma no quotidiano, nas relações sociais. Ele envolve nossas funções orgânicas e afetivas, normalmente desconsideradas pelo processo de educação escolar. As escolas, (e até mesmo as universidades) são tão pouco atrativas aos estudantes, talvez por ignorarem os corpos: que refletem, experimentam, tem ciclos, afetam e são afetados... Experiências em que há a aplicação da pedagogia crítica, influenciada por Paulo Freire em alguns municípios do país nos mostram que é possível fazer diferente: incluir e atrair, e não o contrário. Felizmente, existem processos de educação que valorizam outras potencialidades e saberes, como o Ação Griô, que leva as mestras e mestres pra dentro das escolas e universidades pra compartilhar suas experiências, dando destaque à cultura do nosso povo através da oralidade. Aprendemos melhor os assuntos que nos interessam mais, isso se chama inteligência emocional e nesse aspecto a escola deixa muito à desejar. É preciso pensar com o corpo inteiro, e acho que isso tem muito a ver com criatividade.
A educação tem papel fundamental nas mudanças de percepção. Valorizando a criatividade na busca de novas possibilidades de vida, desenvolve-se tambéma autonomia de mulheres e homens , estimulando novas relações de produção e consumo, considerando todos os seres da teia da vida.
Do ponto de vista da pedagogia biocêntrica que fundamenta o projeto Ação Griô, a criatividade é uma potencialidade humana, um instinto natural que todos têm. A separação cartesiana entre corpo e mente por muito tempo moldou nossas representações. Rolando Toro, diz que a separação entre os criadores das pessoas comuns representa um prejuízo cultural. Os sistemas de alienação exercidos através do trabalho institucionalizado e da imposição de modelos consolidam a dissociação entre o que sentimos e o que fazemos. Nossa civilização, de forma não declarada, ainda reprime a função natural da criatividade.
Acredito na criatividade como instinto, potencialidade humana que todos temos, em menor ou maior grau, dependendo dos espaços culturais em que vivemos. Como educadora entendo que, para se propor mudanças inteligentes e coerentes com nossas próprias necessidades culturais, é preciso criar os ambientes para cultivar a criatividade e a expressão.
* Artista gráfica de Porto Alegre, formada em Design Gráfico, pós-graduada em Educação pela UFPel/RS.
(*) Vania Pierozan é artista gráfico em Porto Alegre, RS. Formada em Design Gráfico, pós-graduada em Educação pela UFPel-RS.