Eu tenho um poncho vermelho que ganhei da avó de um menino. Essa avó tem mãos hábeis que entrelaçam fios de lã até transformá-los em peças quentinhas e aconchegantes. É um poncho muito bonito.
Mas além de embelezar, ele protege contra o frio. E quando eu o visto tenho vontade de agasalhar nele o menino Nestor que vende oito pares de meias por dez reais, da marca que o freguês quiser: Nike, Adidas, Puma. Todas iguaizinhas. Só muda a logo. O menino tem 14 anos. Não sei se ele tem uma avó que lhe faria um poncho. Talvez ele só tenha as meias contra o frio e contra a pobreza.
No meu poncho, eu também queria abrigar aquela mulher que chora porque tem medo de que a sua mãe vá embora para sempre. A sua mãe nunca lhe fez um poncho. Pelo contrário. A sua mãe sempre lhe dirigiu palavras duras e frias. Mas ela é a sua mãe, e ela achou que sua mãe fosse eterna.
Acho que no meu poncho também cabe outra mulher, que lamenta todas as escolhas amorosas feitas até agora. Todas erradas. E se pergunta se a dor da solidão sozinha é a mesma dor da solidão acompanhada. Será que no poncho ela vai se sentir assim tão só?
Poderiam ser aconchegados no poncho alguns meninos adolescentes que vão para a escola e não aprendem o que os professores ensinam. Eles não sabem se eles não aprendem porque os professores não sabem ensinar ou se são eles que não sabem aprender. E quando eles lêem números e letras tudo se confunde e parece sem sentido. Eu queria aconchegá-los no meu poncho e dizer-lhes que há ainda muito tempo para aprender.
E eu ainda queria guardar no meu poncho, bem apertadinho, um homem de cabelos de anjo, olhar e fala doces. Este homem tem as mãos tão hábeis que são capazes de desenhar notas musicais e compor lindas canções, que poderiam embalar todos os habitantes do meu poncho.
(*) Carina Paccola é jornalista em Londrina Pr. Esta crônica foi extraída do blog Idéias & Letras, editadas pela autora.