Ela tinha um coração de pássaro que se sobressaltava. Talvez não fosse o coração, mas o ouvido, que se alarmava com o toque do telefone, os passos dos insetos, o ronronar do gato na cozinha, enquanto ela ficava no quarto, num falso silêncio. Porque na sua cabeça os sons não paravam nunca, sempre havia um trecho do Bolero de Ravel, uma música de Tom Waits, o refrão de Quizás, Quizás, Quizás.
Em dias de chuva, as goteiras pareciam agulha alinhavando a água, ruído fino como se a costura nas moléculas de H²O resultassem num grito de VIDA, uma emergência na qual ela estava tão mergulhada que tudo se redimensionava. Os barulhos dobravam, o tato ardia, a fala estendia-se por um vocabulário desconhecido. Porque há palavras que se desconhecem, misteriosas como o éter que não tem forma, mas existe.
Aquilo que dependia do olhar era tão grandioso quanto o que se ouvia. Tudo fazia parte do redimensionamento da VIDA. Porque ela tinha um coração de pássaro que se impressionava enormemente e também se deslumbrava como quem vê taças de cristal em tempos de vidro, selos secretos em tempos sem carta...Quando chovia, acontecia este exagero e um revoar da memória. Ruídos e imagens da infância, tudo tão datado que todos os poemas nasciam em 1960.
Assim, delicadamente suscetível, era melhor nem sair de casa. Desistia dos encontros e dos contatos, das conversas banais nos botequins hilários.
Nestes dias, esperava a delicadeza passar para não assustar as pessoas e se dedicava a imagens de cristal, gotas de chuva, ecos de conversas, crianças numa ciranda, o peixe no aquário, um poema de 1960. A sutileza por sua conta e risco.
(*) Célia Musilli é jornalista em Londrina Pr. Esta crônica foi extraída do blog Sensível Desafio, editado pela autora.