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CONTO
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Gata

(*) Vicente Ávalos

 

Eram duas da tarde, mais ou menos. Subiram. Todo mundo no almoço e eles aproveitaram.
O cara na frente, abrindo caminho por entre as telhas podres do prédio semi demolido. Logo atrás, a agilidade de gata sendo testada, equilibrando o corpanzil nas pernas cambaias. Os olhos verdes e os cabelos crispados assim, na altura das orelhas, acompanharam o movimento dos quadris subindo as escadas.

Ofegante, ela dá a deixa:
- Como você me quer? Mais magra?

Ele, sutil, receita enquanto flerta com um espaço na laje da marquise, bem pertinho dos fios de eletricidade.
- Hã, hã. Coisas do tipo bater um rango mais suave. Tipo uma fruta, sabe, pensar mais em morrer menos. Também porque estraga o amor, mas mais por essa coisa de acabar nos trinta. Vi na televisão, tá ligado?

- Ela e o professor de malabares, te digo, lá no telhado.
Novidadeira, a secretária faz da agenda um leque, estira as pernas por cima da mesinha do computador e conta pra todo mundo. O falatório entornando a discrição na salinha que serve de escritório para a burocracia da casa de teatros avisa que o almoço coletivo acabou.

Lá de cima, sem pressa, os dois pares de olhos filmam a esquina. As bolinhas sobem e descem enquanto os carros aceleram impacientes, esperando o sinal. Do outro lado da avenida, mais dois argentinos cospem fogo para o cruzamento lotado.

- Começaram a chegar aos montes, querem viajar até o Rio no verão, então bancam na nossa praia, falô? Nada de preconceito, mas os gringos podiam ser menos gulosos. Arte não é só dindim, tem de ter sensibilidade.

Ela suspira. A filosofia dele soa forte.

O sol do meio da tarde assa a carne leitosa da gata gorda. No pé, a sandália de tiras vai bordando uma arabesco marrom na pele. Os peitinhos na mão do artista, parecem seguir o ritmo desajeitado da apresentação que segue na rua. A tatuagem do tornozelo ganha novos contornos quando ela enrosca a perna nua no galanteio.

- Fala, qual é o lado melhor de minha paixão?
A filosofia dele agora escorrega num jeito brega que incomoda. O cigarro na ponta dos lábios, equilibrando as rodas de fumaça e as pernas mantendo os pesos dele e dela, protegendo o desleixo aéreo da namorada.
.... (E a fumaça tem os olhos verdes para segui-la).

O suor do braço dele empapa a cintura da saia jeans da felina gorda. O sol esquenta mais e mais. A artista põe os óculos azuis e um sorriso inquieto no rosto. Depois recolhe o seio da mão do professor e sacode a blusa.
- Vamos? Já ta na hora.

- Ah, amorzinho...

- Assim, agora, não é que eu não queira, mas não posso. Com eles lá embaixo, nem pensa. Não dá mais liga. Fala enquanto a boca, contrariada, aceita que o resto do coito seja prometido com um beijo rápido.

 

(*) Vicente Ávalos é brasileiro, aposentado, e mora em Hernandárias, PY..

 

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