O pensamento queria pausa. Mas o que é o pensamento quando o rio quer seguir o fluxo? O pensamento é frágil como um dique improvisado.
Era tudo muito forte. Havia a confluência do Ganges e do Nilo, do Amazonas e do Yangtzé, o maior rio da China. Todos corriam para o mar. Àquela hora era ela a mais líquida das mulheres, aquela que verte o choro e ainda tem os líquens e os orvalhos. Esta natureza de água decerto era um risco no mundo sem muitas fontes. Era um contraste. Tudo muito seco e inóspito, e tudo ansiava por água que seria sorvida por uma sede de terra antiga. Porque havia os desertos humanos.
Parecia não ter fim aquela sede do mundo e a mulher-água tinha muitos afluentes: ternura e graça, poesia e maciez na língua, oásis e plantas irrigadas. Mas assim que toda a verve líquida desejava correr em fluxo contínuo, rochas obrigavam a água a estancar e a se repartir, perdendo força, transformando-se de novo em pequenos lagos isolados. A natureza seguia seu curso em vários movimentos, muitas vezes contrariando a si mesma. Estancava quando queria puxar. Até que, aqui e ali, uma nova reunião das águas se transformava numa cascata que arrebentava as emoções sutis. A ternura e a graça, a poesia e a maciez da língua, os oásis mais puros e as plantas irrigadas, tudo exposto à tempestade.
Quando chegava neste ponto, para não sucumbir à brutalidade delicada de sua própria natureza, a mulher-água se recolhia e deixava-se levar pelo rio interior onde a emoção contínua transformava-se num pensamento quase ordenado. Havia palavras para colocar pingos nos is, gotas na chuva, moléculas no oceano. Vistas assim como moléculas que se juntam num determinado instante, as águas não eram tão assustadoras, porque a água, como se sabe, tem duas naturezas: uma de riacho doce, um convite de Oxum, outra de onda marítima de arrebentar diques, cidades e civilizações.
Quando a onda gigante se insinua sobre os portos, as embarcações batem seus cascos duros. Um atrito de arrebentação, impacto perigoso como as tempestades tropicais, produzidas por elementais que chamam ventos e os comandam por tempo indeterminado. Pode durar dias ou horas, nunca se sabe.
Na mitologia dos sentimentos há um balé exigente dançado na ponta dos pés, quando os excessos são recolhidos em garrafas, destas que se lançam ao mar para que se cumpram os acasos. Trata-se de um rito de passagem, ninguém sabe do que para que, mas há transformações. Algumas mensagens nunca chegam, batem nas rochas e se transformam em palavras de vidro moído, estilhaços que cortam deixando cicatrizes finas, quase imperceptíveis depois que secam ao sol.
Mas algumas mensagens chegam como códigos de sobrevivência que avançam pelos sete mares, contornam as ilhas, ludibriam a besta e seguem levadas pela casualidade até uma praia mansa, onde toda angústia é espuma. Ninguém imagina que a espuma, que carrega algas e conchas, passou por perigos que têm a ver com o desejo de fluxo, quando as águas começam a formar ondas, redemoinhos, com a força centrípeta puxando e as possibilidades de flutuar parecendo impossíveis.
A mulher-água, com toda sua emoção, depois que corre junto ao Ganges e ao Nilo, encontra a resistência das montanhas, se revolta, se reparte para seguir seu curso, cai em cascata, despenca em abismo, reúne outra vez os afluentes, ruma para o oceano, provoca as ondinas, dança o balé das ninfas, bebe o sangue das bestas, apazigua-se em espuma – ninguém sabe mas a espuma contém algas e conchas - e quebra-se num remanso de praia onde se deita exausta.
Sua natureza é de onda e quando as rochas enfim a recolhem, como se ela fosse ficar ali, ela já partiu, fazendo o caminho de volta ao Ganges e ao Nilo para providenciar a semeadura dos sentimentos sobre a terra inóspita, os desertos humanos. Assim , apesar de todos os obstáculos, fertiliza para sempre e sempre o renascimento.
(*) Célia Musilli é jornalista e escritora em Londrina, Pr. O texto "A mais líquida das mulheres" foi publicado originalmente no blog Sensível Desafio, editado pela autora.