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CRÔNICA
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A verdadeira riqueza do homem

(*) Juvêncio Mazzarollo

“A Felicidade Nacional Bruta é mais importante
do que o Produto Interno Bruto”.
(Jigme Singye Wangchuck, rei do Butão, na década de 1970)

 

            Já houve tempos em que a economia era orientada para o bem comum, a felicidade humana, ou seja, a economia era serva do homem. Depois, na modernidade, o homem passou a ser servo da economia. “Produziu-se uma economia em que só vale o que pode ser transformado em números”, acusa Manfred Max Neef. A isso, o materialismo capitalista chama de progresso ou desenvolvimento, mas não é.             
            Números... Quanto maiores, maior o progresso. E passou-se então a cultuá-los como medida de avanço de uma comunidade humana, de um município, de um país, do mundo. Por aí, o crescimento pelo crescimento tornou-se o objetivo primordial, senão único da vida. Necessário se faz, pois, mensurar o crescimento econômico, obsessivamente, para verificar quem vai na frente nessa corrida maluca. Então, entram em cena os indicadores, os índices de crescimento de uma economia.
           
Renda per Capita – Um dos primeiros e mais notáveis medidores que surgiram foi o guiado pelo critério da “renda per capita”. Divide-se a renda (riqueza) de uma unidade geográfica (município, estado, país, mundo) pelo número de habitantes, e está dada a medida de seu progresso. Por essa via, encontram-se países com elevada taxa de crescimento, mas pessimamente distribuído, e o que se tem, para além da elite dominante e privilegiada, é a imensa miséria. É o caso do Brasil, um dos campeões mundiais no ramo. Mesmo assim, a conclusão é de que esse país está em franco progresso.

            PIB – Produto Interno Bruto – Na tentativa de medir melhor o avanço de determinada economia, passou-se a aferir o chamado Produto Interno Bruto – soma de serviços e bens produzidos em certo tempo e lugar. De novo, não se leva em conta o que o progresso significa em termos de distribuição da riqueza e  melhoria da qualidade de vida dos cidadãos. Aliás, não raro, quanto maiores são os números do PIB, piores são os indicadores de bem-estar humano para grandes parcelas da população, talvez até para toda ela. 
            No livro Os Novos Indicadores de Riqueza, Jean Gadrey aponta as mais sérias distorções nos critérios de medição usados por este método:

  • PIB indica só o crescimento econômico, sem se importar se ele significa desenvolvimento sustentável e aumento do bem-estar individual e coletivo.
  • Não contabiliza perdas de bem-estar causadas pelo crescimento econômico. É o caso, por exemplo, do excesso de automóveis nas cidades, que para a economia, para o PIB, é positivo, mas para a população, um brutal transtorno.
  • Atividades e recursos que contribuem para o bem-estar não são contabilizados porque não são comerciais nem tem custo monetário.
  • PIB é indiferente aos resultados em termos de satisfação e bem-estar decorrente do seu consumo.
  • É indiferente também à partilha das riquezas, às desigualdades, injustiças e insegurança econômica.

O PIB americano, por exemplo, aumentou exponencialmente nas últimas décadas, porém, pesquisas mostram que o povo americano está mais infeliz do que há 40 anos, talvez mais infeliz do que nunca. O mesmo acontece com o Japão e tantos outros países do chamado Primeiro Mundo.
É tão enganoso o PIB que, sob sua ótica, até o aumento dos acidentes de trânsito é indicador de “progresso”, graças aos negócios que giram ao redor dessa tragédia dos dias de hoje. Atualmente, o próprio criador do índice PIB, Simon Kuznetz, compreende que não é bom e precisa de revisão.

IDH – Índice de Desenvolvimento Humano – Importante avanço na aferição do que seja progresso de um povo foi obtido pela ONU em 1990, com a criação do método que mede o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), mas este também ficou restritivo, incompleto, pois se atém apenas aos indicadores de renda, saúde e educação. Evidentemente, há muito mais que isso envolvido na questão. Surge, então, novo índice: FIB.
 
            FIB – FELICIDADE INTERNA BRUTA

            O que, afinal, o ser humano realmente aspira ao longo de sua passagem pela Terra? Elementar: felicidade, mesmo quando a persegue por caminhos erráticos, como o acúmulo de riqueza material, de dinheiro. Por mais que isso ajude, não garante a felicidade possível neste mundo que uma reza da Igreja Católica chama de “vale de lágrimas”.

             Verdadeira revolução nesse afã de dizer em que consiste e como mensurar o progresso, ou a verdadeira riqueza do homem, parte do Butão, minúsculo país da Ásia que trocou o PIB pelo FIB.

            “A Felicidade Nacional Bruta é mais importante do que o Produto Interno Bruto”, proclamou o criador do FIB, o 4º Rei do Butão, Jigme Singye Wangchuck HM, ainda na década de 70 do século 20. A idéia vagou pelo país sem nunca ser perdida de vista, até que, em novembro de 2008, na coroação do 5º Rei, Jigme Khesar Namgyel Wangchuck, o governo real adotou oficialmente o índice FIB, na esteira das mudanças sociais, econômicas e políticas que já vinham sendo implementadas na direção da felicidade, do bem-estar da população.             

            Segundo o conceito FIB, “desenvolvimento é ser feliz”, senão, não é desenvolvimento. Para mensurá-lo são levados em conta 72 indicadores em nove dimensões, ou componentes da felicidade e bem-estar no Butão. As dimensões são: bem-estar psicológico, uso do tempo, vitalidade da comunidade, cultura, saúde, educação, diversidade do meio ambiente, padrão de vida, governança.
Pela nova contabilidade, muito do que para o PIB é lucro, avanço, progresso, para o FIB é prejuízo, atraso, retrocesso. É preciso abandonar o economicismo, que reduz tudo a números, e incluir novas dimensões, tangíveis ou intangíveis, mensuráreis ou imensuráveis. A devastação da floresta para dar lugar à soja ou ao gado eleva o PIB, mas pode fazer despencar o índice FIB. Ter muito dinheiro é indicador de riqueza do ponto de vista material, mas pode ser indicador de empobrecimento do ponto de vista do conjunto de valores que produzem a verdadeira felicidade, o bem-estar que todo ser vivo busca.
                       
 
 
 (*) Juvêncio Mazzarollo é jornalista ambiental em Foz do Iguaçu, Pr.

 

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