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CONTO
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Cio dos Gatos

(*) Silvio Campana

           

Um dia perdeu a identidade. Não essa que se reivindica na burocracia do governo; foto, assinatura, nome do pai, nome da mãe, data de nascimento, carimbo e pronto. O que desapareceu foi aquela marca pessoal. Deixou de ser dele o tempero da vida, a forma mais apurada de ter cheiro, a ginga no andar, a vontade explícita nos sonhos. Aliás, os sonhos, esses, sumiram.

Um dia, quando madrugou, só havia a paixão. O quarto ainda em penumbra ecoou o grito abafado pelo barulho dos carros na Pará.

- Seis horas, Eunice.

As coxas da mulher escaparam do lençol. O mau-humor, também, num silêncio que o travesseiro filtrou. Nos olhos dele, a simulação de tempo deixou de existir, dando lugar à mistura da beleza daquela pele e de uma saudade. Lembranças de sempre, que naqueles dias de outono, mais e mais, eram gotas de solidão.

- Eunice, olha a hora...

Depois tomou o ônibus. Silencioso, o corpo contando cada degrau. A vontade manca de ziguezaguear pelas ruas. As janelas e o movimento da cidade perturbando a vida em sua cara. As rodas na Pará, na Humaitá, comendo o asfalto. Belo Horizonte, pequeno trecho em declive, paralelepípedos, Goiás, cruzamento com Benjamin Constant. Eunice ao lado, falando um linguajar comum e ininteligível. Mais um cruzamento, o da Brasil com Floriano.

- O próximo é o nosso, avisou com os olhos entre o corrimão e o vidro da janela. A boca àcida sem mais nada pra falar.

No início não era assim, volta e meia conversavam. Horas e horas a rodear o mundo e suas notícias, sustentando um ar trágico para o que não era fatal, adquirindo prazer em martirizar aquilo que não era verdade, numa pura sedução. E, enquanto as curvas eram cada vez mais roliças no corpo dela, os miados faziam o mesmo na boca dos gatos. Aqueles animais. Por certo estavam loucos! Emporcalhavam os beirais com seu cio e sua merda, gastando as vidas que só a eles pertenciam. Povoavam sua pelica macia e sensual casa adentro, num desafio com o comportamento felino de ironia e decisão. Uma perfídia!

Viviam assim, o vaivém entre as pernas. As penugens do ventre se revezando num arrepio de emoção. As gargantas tragadas por soluços que as paredes emoldurariam para sempre. Felizes, arriscavam uma repetição insaciável dos contos mais apaixonados, que nem os livros podem guardar. Um afogar do tempo naqueles seios empinados a mostrar garras que se afiavam nas cobertas e nas linhas das costas, deglutindo o prazer.

Iam assim. O silêncio saía arfado por entre os bigodes, dele e dos gatos, quando esmeravam na feitura das figuras que a iluminação da rua carimbava pontualmente à noite, perfazendo um ritual.

Depois a briga. Fazendo fissuras que não cicatrizariam. Um medo da morte. As costelas rasgando o peito anunciavam alguma coisa bizarra; um dragão, um câncer, um sei lá o quê por perdê-la. Então o andar patético pelos cômodos da casa, tropeçando na vida inútil dos felinos. Animais que como relógios, marcavam estrábico o fetiche daqueles destinos. Então a pedra falsa no coração, delineando as formas e as cores daqueles componentes de um jogo que, aparentemente, não se definiam na cabeça do casal. No rosto, sempre a tentativa de sustentar a felicidade. Uma forma de poesia, uma retórica emplastada pelo desespero da rotina.

- O que tenho nos olhos é a tua vida!

As palavras se juntando como um time de futebol a tentar outra tática mais direta. Na verdade, a vida embaçava entre algumas linhas de emoção. E, como outros inventos, degradava-se pela pia ao se escovar o dente, numa paisagem que acabava por eriçar ainda mais a pele dos felinos.

Enquanto o correr do tempo doía meticulosamente nas feridas, na mulher inchava e padecia um segredo arrebatador, que só aquela inocência perdia aos vinte poderia guardar. Era o ciúme dos carros no centro da cidade. Era uma viagem na excitação de ter as pernas subindo pelos umbrais dos prédios, convivendo com a sensualidade e a loucura dos outros animais secretos que povoavam sonhos na casa. Quase estupro, quase perfeição de um coito. E a pedra do coração transformada em dentes que lhe roíam as pálpebras e afagava o sexo e a vontade de tudo.

Eram eles. Eunice e Joel. O embalo do cuco na parede, um fôlego emprestado para os ponteiros, ingenuamente paralisados pelo rastejar de uma falsa e por isso eterna juventude. Como a atualizar os parentescos dos humanos, com o perfilar de um sem número de aventuras e entes fantásticos que ajudavam a limpar a sujeira espalhada impiedosamente pelos felinos na sala de estar. Raridades que se misturaram para sempre com a música da vitrola em um desafinado concerto.

O ônibus parou. Eunice desceu primeiro. Na cabeça de Joel o pensamento de resolver tudo aquilo.

- Hoje, se acontecer de novo, invento histórias! Vou contar verdades, ocres como um fundo de muro na alameda movimentada. Se eram inconsistentes antes, agora são imprescindíveis...

Eunice não entendeu. Pensou de maneira prática no marido. Mania de querer falar baixo para que os outros não escutem. Sempre as palavras fugidias e soando como chiado.

- Joel, vai levar o jornal?

Os olhos amendoados pelo reflexo da calçada lia a manchete principal.

- ... Vou reconstituir temas. Impor limites à velocidade dos carros, oferecer personagens e martírios para todas as façanhas...

As pernas recostadas na banquinha de jornal pareciam dois andaimes que se erguiam para os prédios ao seu redor.

- Joel!

Eunice parou mansa na segunda palavra entre os dentes. Imaginando, quem sabe, seus gatos nas marquises dos prédios do centro e a inutilidade de uma comunicação com tal ser.

- ... Felicidade e choro sempre se completam. São conhecidos antigos e não acontecem sem que a minha peça em cartaz defenda o seu usufruto!, ele gritou.

Falou assim, enquanto pagava o jornal. Na capa, a foto de Julio Iglesias voltando para um show no Brasil. A mulher trocou pés em direção às vitrines, colorida com os olhos na moda verão.

- Enfim, Eunice, a melancolia de antigamente, troquei por algo mais vivo que é a saudade!

A boca desenhou as últimas palavras sem que ela ouvisse, lá na frente, depois do quiosque de bombons. Daí, com a mão direita ele segurou o jornal, com a outra esfregou a umidade dos olhos e a seguiu. Calmamente, passo a passo.

 
 (*) Silvio Campana é jornalista em Foz do Iguaçu, Pr.

 

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