Vamos deixar para os historiadores a datação desta mudança e para os sociólogos a nomeação dela (estamos na Modernidade, na pós-modernidade, na hipermodernidade ou nos tempos líquidos?). A maioria dos intelectuais, cada um nos seus campos de saberes específicos, são capazes de levantar e estudar as manifestações desta revolução ou mutação que está se realizando diante de nossos olhos.
Mas afinal o que mudou?
Talvez o discurso psicanalítico tenha alguma coisa para nos dizer, permitindo uma grade de leitura para entender o mundo.
Resumindo, estaríamos caminhando para uma civilização de tipo matriarcal, selando assim a morte do pai simbólico, num processo que começou antes de 1968, cujas convulsões foram sentidas naquela época. Esse pai, é o que, através da lei da proibição do incesto, instala uma mecânica do desejo baseada na falta.
Estaríamos passando do sujeito do inconsciente que remete a uma ordem simbólica dominada pela linguagem e a lei para um sujeito com o inconsciente esvaziado.
As relações individuais e sociais não passariam mais pelas manifestações do inconsciente, lugar do recalque que produz, além do sintoma, uma subjetividade definidora de um sujeito, o sujeito da palavra, para dar lugar a um tipo de relações de indivíduo a individuo; esse individuo se tornaria um objeto descartável (lixo), preso no excesso de gozo idealizado e promovido pela mídia - tomando o lugar do “Grande Outro” - e preso no ciclo da frustração organizado e alimentado pela sociedade de consumo mercantilista sem ideologia e sem freios.
Se Freud alertou no seu Mal estar da civilização que a antiga economia psíquica desenvolvia sintomas desconfortáveis para o individuo (as neuroses), a nova economia psíquica, a NEP, denominada assim pela psicanalista Charles Melman, não permite também caminhar para o surgimento de um novo Eldorado, um mundo livre dos sintomas.
O fenômeno da euforia do bipolar com o seu preço a pagar, a da depressão ou da fadiga, seria a expressão dessa nova configuração.
Luc Ferry no seu novo livro “Famílias, amo você”, tanto como Gilles Lipovetsky com sua “Felicidade paradoxal”, quer enxergar o lado positivo da nova evolução societária do individualismo. No entanto, a maioria dos sociólogos, antropólogos, cientistas políticos e psicólogos estão mais para denunciar os limites ou os perigos do novo ser que está surgindo. Eles apontam, além do sintoma, as prováveis conseqüências associadas, dentro de um modelo também marcado pelas promessas ilimitadas da ciência e da tecnologia.
Poderíamos citar, por exemplo:
• O fim da subjetividade levaria a uma massificação dos comportamentos. O aparecimento do homem banal, comum, vazio e superficial acabaria com a diversidade e a riqueza das suas antigas manifestações e produções, reforçado pelo lema ”Todos Iguais”.
• Esse comportamento seria baseado na compulsão (economia do excesso dos prazeres) com seu corolário contrário (política da repressão).
• Esse comportamento seria do tipo perverso (sem limite e com aniquilação do outro)
• Esse comportamento seria do tipo infantil.
• Esse comportamento seria líquido, sem identidade, sem âncora, mas cheio de angústia.
• Esse comportamento seria assexuado (fim do sexo, fim da diferenciação sexual, embalados com muita ciência para continuar a corrente da vida humana)
• Esse comportamento seria alienado (fim da política e da democracia para a realização de um sistema totalitário, sem um centro de poder físico)
• Esse comportamento seria da vitimização do indivíduo e da conseqüente irresponsabilidade de seus atos, inflacionando o campo da justiça e do direito, único mediador dos conflitos.
E o que tudo isso tem a ver com a literatura ou as artes de modo geral?
Esse sujeito-objeto banalizado com o inconsciente reduzido, desprovido de uma linguagem simbólica (para trocá-lo por uma linguagem tecno-digital, dos números) não seria mais capaz de produzir elaborações intelectuais sofisticadas, nem refletir. Esse novo ser seria homogeneizado e livre da dor e do sofrimento, conforme a promessa de felicidade explícita nos best-sellers de auto-ajuda dos novos gurus de plantão. Ora, essa dor e esse sofrimento (diferente da loucura) não estariam na base de todo processo criativo e artístico? Na nova configuração, só pode dar lugar a uma cultura descartável (do lixo), sem produção válida para a humanidade, quer dizer, sem poder dar sentido à existência dos pobres seres humanos que somos e de realmente guiar nossas vidas.
É o tal fim das grandes narrativas lançado por Jean François Lyotard, numa liquidação do passado e da tradição, enquanto foram os mitos que organizavam as leis fundamentais a ser respeitadas dentro da sociedade; talvez hoje o cinema mais do que a literatura dê conta desta transmissão.
Assim como todas as invenções (uma dela no campo das idéias: o amor) e criações artísticas são ilusões para tampar o buraco criado pela falta.
Charles Melman avisa no seu livro de entrevistas "O homem sem gravidade": “A existência do inconsciente é um antídoto à desumanização”.
E o sujeito do inconsciente, do recalque e da palavra que produziu mais de 2000 anos de cultura ocidental na forma que a gente conhece, na música, na pintura, na literatura?
Vamos arriscar de ver desaparecer essas formas conhecidas pois parece que a cabeça de nossos filhos vai ser incapaz de entender, apreciar, se deleitar com o conteúdo de tais obras?
Vamos arriscar de perder o belo inútil (ou seja, a arte) que nos faz humanos e vivos?
Fontes bibliograficas
1 - Charles Melman, O homem sem gravidade, gozar a qualquer preço,
entrevistas por Jean-Pierre Lebrun, Companhia de Freud
2 - Toda a obra de Zygmunt Bauman (sobre a noção de liquideza)
3 - Luc Ferry, Familias, amo você, Editora Objetiva
4 - Gilles Lipovetsky, A felicidade paradoxal, Editora Companhia das letras
5 - Toda a obra do romancista francês Michel Houellebecq (sobre a liquidação do sexo)
6 - Jean- Francois Lyotard, A condição pós-moderna, Editora Jose Olympio