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texto de Célia Musilli publicado no
Tirando de Letra.

 

CRÔNICA
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Retrato falado

(*) Célia Musilli

No início era apenas um rosto que podia perder-se na multidão sem fazer falta. Mas um dia, tocada pelo tempo, descobri que ele tornou-se familiar. Outro dia, tocada pelo vento, descobri que, além de familiar, ele se tornara imprescindível. Era um rosto de beleza tranqüila, sem excessos. Havia a simetria que equilibra os traços e uma doçura nos olhos cor de mel que logo descobri serem janelas, aquelas mesmas, permeáveis, que deixam escapar a luz interna sem cortinas.

Não havia espanto naquele rosto, nem angústia. Embora a expressão das pessoas possa destoar dos seus vulcões internos, das tempestades de areia, das marés vazantes que não deixam escapar lágrimas ocultas. Porque as lágrimas, vocês sabem, é um atributo muito íntimo. Mas não havia rugas de derrota naquele rosto, apenas paisagens camufladas. Então, eu supunha que ele processava os tormentos num território além do corpo. Porque havia uma profundidade no olhar que deixava entrever a extensão dos pensamentos e a emoção de contemplar a vida.

Havia equilíbrio na linha da testa. E lábios finos que escondiam uma grande eloquência, a facilidade com a fala, o desejo de comunicação. O nariz era comum e se harmonizava com os outros traços. As orelhas eram pequenas e lhe davam um ar de esperteza aguda. Antenas imóveis, a não ser quando sofriam a interferência dos sorrisos. E eram muitos sorrisos, alguns de uma doçura incalculada. Outros de uma tristeza peculiar aos que muito sorriem como se, assim, estivessem de bem com a vida. Este era seu maior triunfo...

Nunca o vi bravo nem desagradável. De forma que ficou impossível discernir o alcance da sua ira. Na ausência deste complemento, que nos dá um retrato mais bem acabado dos temperamentos, adivinhava-o mais nervoso que possesso, embora ele também jurasse que abrigava uma besta. A besta de todos nós. O minotauro que um dia teremos que enxergar, enfrentar, nem que seja para fugir depois.

Os cabelos eram curtos, a barba por fazer dava-lhe o ar de um desleixo sensual ou a medida do desdém masculino com os próprios pelos.

Durante alguns anos olhei aquele rosto para descobri-lo. Porque um rosto torna-se tão familiar quanto a cidade do nosso nascimento. Um rosto pode ser mapeado em todas as suas curvas e linhas, como a cidade que cruzamos a pé identificando cada esquina: a Rua da Memória, a Ladeira dos Esquecimentos.

Um dia, inexplicavelmente, deixamos de andar por aquelas ruas, nos mudamos, levando os lugares como um cartão-postal. Assim também são os rostos que amamos, até que sobram só fotografias e a data longínqua de um sorriso. Porque um dia, todos os rostos, mesmo os mais queridos, somem de vista, como a cidade que ficou no escuro.

 

 (*) Célia Musilli é jornalista em Londrina, Pr. "Retrato falado" foi publicado originalmente no blog Sensível Desafio, editado pela autora.

 

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