Uma das vozes mais conhecidas e reconhecidas do final do século XX e início do XXI da América Latina e do mundo, calou-se no último final de semana em Buenos Aires, morreu Mercedes Sosa. A cantora que embalou com sua voz forte e com o potente som de seu tambor os sonhos das duas últimas gerações revolucionárias de 1970-1980 que a nossa América Latina ousou gerar.
Ela ousou resistir com a força libertadora de seu canto ao arbítrio, a dor, a tortura e a morte imposta pelas ditaduras militares que assolaram o nosso continente, desde a Argentina, Uruguai, Brasil, Peru, Chile, Bolívia, Equador, Nicarágua, El Salvador, Haiti, até a nossa Honduras violentada do século XXI por outro golpe militar.
Durante décadas suas músicas foram um dos símbolos culturais e políticos mais importantes da integração latino-americana e que nossa juventude viveu intensamente em sua luta por liberdade. Diante das perseguições políticas, dos desaparecimentos, da infame dor da tortura e do estupro, da humilhação imposta pela tirania dos militares, nós ouvíamos Tarancón, Raízes de América e, sobretudo, Mercedes Sosa.
Sua música ecoava por nossa América como rebento de resistência, de desobediência, de esperança e duma só luta pela liberdade que nos fora roubada. No Brasil uma geração de cantores como Milton, Chico Buarque, Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Gil e tantos outros cantaram com ela, mobilizados pela força, pela beleza de seu canto libertador e por sua enérgica luta contra as ditaduras militares.
Lembrar de Mercedes Sosa é relembrar momentos de muita emoção, que não se restringe à lembrança de alguém, mas dum conjunto de pessoas, de uma geração, de um tempo com significado singular. O de acreditar na possibilidade de um mundo mais justo, humanizado, fraterno e feliz. Hoje já quase não podemos pensar ou sentir o mesmo, pois muitas esperanças se quebraram. Só ficaram a nostalgia e a esperança, que nunca morre.
Lembrá-la é não permitir jamais que seja olvidada, que sua voz e sua palavra se eternizem levando às novas gerações o que vivemos e o que acreditamos. Muitos que a ouviram foram calados nessa luta por um mundo mais justo...Lembramos deles também, as gerações que sonharam, lutaram e cantaram ao violão Volver a los diecisiete.
Mercerdes Sosa é um símbolo de liberdade, de esperança e de luta pela emancipação humana, pela construção de uma América Latina e de um mundo mais justo, livre, unido e em paz para todos os seres que o habitam. Mercedes Sosa presente!
(*) Cecília Braz e Francisco Bertok, professores universitários em Foz do Iguaçu, Pr.