A gente sempre sabe o fim dos vilões: são enviados à cadeia ou morrem. Eles não sabem o que é “viver feliz para sempre”. Os filmes sempre terminam com trilhas sonoras igualmente heróicas e, variavelmente, os mocinhos ficam com as belas donzelas.
Mas, e agora? Fiquei imaginando o que poderia acontecer com os super-heróis das histórias em quadrinhos.
Na minha cabeça, já estão todos aposentados. Alguns pela idade, outros por fadiga.
O Super-Homem se casou com Lois Lane. Formaram uma família com seus três lindos filhos, todos com reações alérgicas se expostos a alguns tipos de pedras, mas não possuem nenhuma força desumana como o pai. A dele, por sinal, foi aposentada junto com o uniforme azul e a polêmica cueca vermelha, e é usada apenas quando ele se depara com um pote de palmito.
Batman cansou da vida milionária. Assumiu a identidade Bruce Wayne e foi viajar, gastar sua fortuna. Quando voltou, arranjou um emprego. Virou instrutor de auto-escola (graças a sua experiência com o Batmóvel, dirigir era quase um dom).
Depois de vários meses praticando Yoga e Tai Chi Chuan, o Incrivel Hulk aprendeu a controlar sua raiva.
Depois de vários desencontros, Mary Jane seguiu a carreira de atriz e deixou Peter Parker. Ele levou um tempo para se recuperar. Conseguiu só quando encontrou sua nova paixão: a mágica. Não demorou muito até ser contratado por um circo. Ele era simplesmente fantástico. As crianças iam ao delírio. Onde mais era possível ver um senhor, na fase do 50, tirar teias de aranha dos pulsos?
Nem o Wolverine escapou da aposentadoria (ainda que a aparência jovem e rudemente bela continuasse, a idade dele já ultrapassa os dois díitos). Ele largou o grupo do Professor Xavier e abriu uma linha própria de espetos para churrasco (inspirado, é claro, no material de seu próprio corpo).
A princesa de Themyscira, Mulher Maravilha, assumiu uma fazenda no Texas. Por causa do Alzheimer, não se sabe, até hoje, onde ela deixou seu avião invisível. Ela já até ofereceu recompensas, mas achou melhor desistir depois de alguns jovens a enganarem. Certa vez, um chegou a afirmar, na maior cara de pau, que ela não não estava conseguindo dar a partida porque ela não estava pisando fundo o suficiente nos pedais.
Quem não anda bem é o Aquaman. Depois de decidir largar de vez o mar , ele nunca mais foi o mesmo. Ele está em cima do muro: não quer ser normal, mas também não quer ser herói. O resultado disso foi um senhor barrigudo, de cabelos tingidos para manter a cor loura e de roupa bizarra andando pela cidade. Sua única distração é ir à feirinha, onde compra comida.
Mas ruim mesmo é quando ele resolve ir ao supermercado e termina o dia tentando conversar com sardinhas enlatadas.
(*) Letícia Lichacovski é jornalista em Foz do Iguaçu, Paraná.